O belo alazão de compridas crinas e cauda longa cavalgava altivo. Ia a todo galope por estradas fazendo poeira e por campos floridos e macios, em cujo fim encontrava o céu de nuvens talhadas de azul. Atravessava com destemor os mil riachos de água fria jogando-a para as margens. Subia morros como se estivesse a galopar planície, pulava paus e cercas sem nunca se cansar. O grande cavalo imaginário era um galho envergado do ingazeiro no lado de fora do quintal, plantado pelo vento ou descuido de algum passarinho.
Tinha como sela um pedaço de saco de estopa e, como rédeas, dois barbantes ensebados amarrados ao tronco a fazer vez de focinho. As crinas longas e a cauda comprida eram as folhas volumosas que varriam o chão fofo a levantar poeira sob a impulsão dos galeares no procotó das patas possantes, onde a imaginação e a alegria habitavam aquele menino de pés descalços que, brincando de cavalgar, conversava com a árvore-montaria, e compunha histórias de índios, bichos e gigantes, ora abatidos a tiros, ou por flechas certeiras.
Muitas viagens e aventuras fizeram.
Não sabe quantas, porque, aos poucos, foram sendo substituídas pelas aulas do primário, do ginásio, do científico e a alegria se mudou. Novos cenários. Agora de sapatos apertados, bolsa de couro, cadernos branquinhos a lhe tomarem o tempo. Outros amigos e brincadeiras, e o menino cresceu, virou homem de barba e cartão-ponto, com hora para isso e aquilo nas idas e vindas do tempo.
Cercado de sonhos, cavalgares outros em aventuras noturnas junto a batons e perfumes de companhias diversas, conversas do mundo nas horas mais sérias, mais livros, estudo e aprendizado, galgou degraus, desses que a vida reserva.
Um dia, depois de muito tempo, rugas na testa e olhar carente, voltando à velha casa e parando sob a sombra da mesma árvore, viu-a compactada nos tijolos da calçada e com suas raízes sufocadas por torniquetes. Acariciou seu tronco como a dizer: – Oi!
E lhe deu um afago leve e demorado naquele reencontro mudo. Em resposta, ouviu um suave farfalhar tocado pelo vento que o saudou alegre, e ele, em contato e entendendo o cumprimento, lançou um manso olhar em torno seguido de gotas que selvagemente lhe brotaram nos olhos e escorreram.
Recompondo-se e meio envergonhado, pensou: “Saudade boba”.
Mas, no devaneio inocente, observou que ‘seu’ alazão havia crescido, engordado e que sua cauda já não fazia poeira, já não arrastava no chão. O galho era alto e de lá de cima o olhava como se o convidasse para mais uma aventura com índios, bandidos, bichos valentes, mesmo que a fizesse apenas no quarteirão asfaltado e de rua movimentada.
Tudo havia mudado e o passado jamais poderia voltar.
A sela e as rédeas o tempo consumira, mas aquele momento buscado no ontem o levaram de novo às lutas malucas fazendo-o sentir vontade de cavalgar novamente o cavalo-galho e se deixar voltar à infância para fluir no ar quente da tarde, a doce felicidade. Mas não, o anel de doutor o impediu.




