Por Anderson Alarcon
Terceiro dia de 2026, e o mundo volta a falar de guerra. Conflitos armados se espalham por diferentes regiões do planeta, reacendendo temores globais, disputas geopolíticas e narrativas de poder. Mais recentemente, o embate diplomático e estratégico entre os Estados Unidos e o ditador da Venezuela reacendeu debates sobre soberania, sanções, força militar e limites da diplomacia. Em meio a esse cenário, surge uma pergunta incômoda, porém necessária: afinal, a paz nasce da guerra?
À primeira vista, a pergunta parece absurda ou até moralmente condenável. A humanidade, em tese, busca a paz, a estabilidade e a convivência harmônica. No entanto, a própria história demonstra que raramente os grandes períodos de paz surgiram do silêncio, da omissão ou do consenso imediato. Muitas vezes, eles nasceram do embate, do confronto de ideias, interesses e valores.
Já na filosofia antiga, Heráclito afirmava que “a guerra é o pai de todas as coisas”. Não se tratava de exaltar a violência, mas de reconhecer que o conflito — de forças, ideias ou interesses — é motor de transformação. Para ele, a harmonia não é ausência de tensão, mas o equilíbrio que surge dela.
Na política realista, Thomas Hobbes observava que, no estado natural, os homens vivem em permanente conflito. A paz só se estabelece quando o medo da destruição leva à criação de regras, instituições e autoridade. Em outras palavras, não é o idealismo que gera paz, mas a consciência dos limites impostos pelo conflito.
Séculos depois, Carl von Clausewitz resumiria essa lógica ao afirmar que a guerra é a continuação da política por outros meios. Para ele, os conflitos armados não encerram a política; eles a redefinem. A paz que vem depois da guerra é sempre um novo arranjo de forças, um novo acordo sobre quem pode, quem manda e até onde se pode ir.
A Bíblia, por sua vez, não ignora essa realidade dura. Ao contrário do que muitos imaginam, ela não romantiza o mundo. Na Bíblia Sagrada, o livro de Eclesiastes ensina que “há tempo de guerra e tempo de paz”. O texto não glorifica a guerra, mas reconhece que ela faz parte da experiência humana em um mundo marcado por conflitos, injustiças e escolhas erradas.
O Antigo Testamento reforça uma ideia fundamental: a paz verdadeira é fruto da justiça. O profeta Isaías afirma que “o efeito da justiça será a paz”. Não se trata de uma paz superficial, baseada na omissão diante do mal, mas de uma paz construída após o enfrentamento da injustiça, da opressão e da violência que corrompem a convivência humana.
No cristianismo, esse paradoxo atinge seu ponto máximo em Cristo. Ele é o Príncipe da Paz, mas também afirmou que sua mensagem traria divisão, confronto e escolhas difíceis. A cruz, símbolo central da nossa fé cristã, representa justamente isso: a paz entre Deus e a humanidade nasce do maior conflito espiritual, do sacrifício e da vitória do bem sobre o mal.
Essa lógica também se aplica ao campo das ideias. O debate, o contraditório e o conflito de opiniões são essenciais à democracia. Onde não há confronto de argumentos, há autoritarismo. Onde não há debate, cresce o pensamento único. Muitas vezes, o entendimento só surge depois do choque de visões opostas, quando os excessos são revelados e os limites, ajustados.
O problema não está no conflito em si, mas na forma como ele é conduzido. O debate pode gerar entendimento; a guerra pode gerar acordos; o confronto pode gerar maturidade. O que destrói a paz não é a divergência, mas a incapacidade de transformá-la em diálogo, regras e convivência civilizada.
Talvez, então, a pergunta correta não seja se a paz nasce da guerra, mas como transformamos conflitos — armados, políticos ou ideológicos — em aprendizado, justiça e reconstrução. A história, a filosofia e a Bíblia parecem concordar em um ponto: a paz duradoura não nasce da negação do conflito, mas da coragem de enfrentá-lo com responsabilidade, limites e humanidade.
Prof. Dr. Anderson Alarcon
Advogado
@and.alarcon




