A Fundação Cultural de Paranavaí dispõe de um dos menores orçamentos anuais na comparação com outras secretarias municipais. Para 2026, o valor estimado é de R$ 7,25 milhões – acima apenas de Esporte e Lazer (R$ 6,55 milhões), Fomento Econômico e Inovação (R$ 6,1 milhões), Comunicação Social (R$ 1,75 milhão), Gabinete do Prefeito (R$ 1,65 milhão) e Controladoria Geral (R$ 1,3 milhão).
O dinheiro é aplicado em grandes shows, como foi o do cantor Nando Reis, em 16 de dezembro de 2025, na Praça dos Pioneiros. Mas não só. Também incentiva produções locais e movimenta toda a classe artística da cidade. Os eventos proporcionam momentos de lazer para a população e fomentam a economia.
Diante da importância desses investimentos, uma emenda ao orçamento anual aprovada em dezembro de 2025 causou preocupação. O texto assinado pelos 15 parlamentares retirou R$ 300 mil da Fundação Cultural e destinou à Secretaria de Assistência Social, Mulher e Família.
A cantora e compositora Jacqueline Cardoso lamentou. “Esses cortes farão muita falta na mesa do trabalhador de toda cadeia relacionada à cultura e aos eventos na cidade.” Ela compartilhou vídeos nas redes sociais para externar a indignação e motivou a mobilização da categoria.
Ao Diário do Noroeste, afirmou: “Vamos nos manifestar. Além de abaixo-assinado, estamos organizando uma busca ativa para recomendar aos vereadores outras fontes de financiamento para outras secretarias.”
O presidente do Conselho Municipal de Cultura de Paranavaí, Hugo Ubaldo, confirmou. “A gente já fez esse contato com a Câmara, questionando o porquê da retirada de valores, e também com o Executivo.” A falta de diálogo aberto com a classe artística desagradou. “O Conselho não foi informado, a pasta [Fundação Cultural] não foi informada.”

Foto: Ivan Fuquini
O presidente da Fundação Cultural de Paranavaí, Rafael Torrente, disse que ficou surpreso com a mudança orçamentária. Soube da emenda às vésperas da votação. Recorreu ao prefeito Mauricio Gehlen e ao secretário de Fazenda Rafael Cargnin. “Eles garantiram que não vai afetar nenhuma ação prática.”

Foto: Ivan Fuquini
Na falta de recursos financeiros, a administração municipal poderá levar à apreciação dos vereadores a chamada suplementação orçamentária, que nada mais é do que um instrumento legal que permite aumentar a dotação e ajustar o orçamento aos imprevistos.
Torrente enumerou: “Em março, a gente tem uma edição especial do Suruquá Rock – e até dando um spoiler aqui – com o show do Jota Quest; a outra banda a gente está finalizando a contratação. Temos Páscoa Mágica Pvai, uma ação de inovação. O Abril Literário. Uma festa nova que a gente está planejando em um distrito de Paranavaí. Tem muita coisa boa vindo aí”.
Finanças e orçamento
A vereadora Aparecida Gonçalves, popularmente conhecida como Professora Cida, é presidenta da Comissão de Finanças e Orçamento. Ela explicou que o Legislativo tem a prerrogativa e a autonomia para fazer emendas. A adequação polêmica levou em conta a atuação essencial das entidades assistenciais.
“As entidades que prestam um serviço social fundamental e relevante estão com dificuldades em honrar os seus compromissos com tantas demandas. Estamos falando de instituições que complementam o poder público. Que chegam onde o estado, sozinho, não consegue chegar. Que garantem dignidade, proteção e cuidado diário a quem mais precisa.”
Professora Cida complementou: “Reforçar esse atendimento é uma escolha de responsabilidade e humanidade. Porque nenhuma cidade é verdadeiramente desenvolvida se parte da sua população estiver desassistida”.
A despeito do posicionamento enfático, a vereadora disse reconhecer o valor da cultura como fator de promoção da qualidade de vida e de fomento à economia.

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Comissão de Cultura
O presidente da Comissão de Cultura na Câmara, vereador Carlos Alberto João, colocou-se à disposição para conversar com o Poder Executivo sobre a garantia de que não faltariam recursos para a Fundação Cultural. Quer ter certeza de que haverá planejamento.
Também pretende requerer informações sobre quais atividades serão impactadas com a transferência dos R$ 300 mil. Segundo o Professor Carlos, como é conhecido, a emenda foi, sim, aprovada pelo Legislativo, mas com base em análises e apontamentos da própria administração municipal.
Arte é profissão
Conforme destacou o presidente do Conselho Municipal de Cultura, a arte não se resuma às apresentações musicais em grandes palcos na área central da cidade ou nas praças dos bairros. “O ecossistema da cultura é enorme.”
Ele estima que o setor gere mais de 6 milhões de empregos diretos em todo o Brasil e calcula que a cada R$ 1 investido em cultura pelo poder público, quase R$ 8 retornem para a economia.
“A gente tem que lembrar da contratação do palco, o técnico de som, o iluminador, o pipoqueiro, o ambulante. Um show não é só um show, ele tem produção, tem o deslocamento do público, a contratação do banner, a propaganda, o abastecimento do carro. E a gente não está falando só de shows [musicais], a gente está falando de teatro, de contação de história, de festival, de espetáculos de dança…”
O presidente da Fundação Cultural informou que em 2025 os recursos destinados a essa finalidade permitiram a contratação de mais de 50 artistas de Paranavaí.
Não muda
Mesmo com a mobilização da classe artística, a emenda ao orçamento anual já está aprovada, portanto não há como reverter. A orientação dos próprios vereadores é convergente com a constatação do Conselho Municipal de Cultura: é preciso que os artistas participem de forma mais ativa nas decisões do poder público.
Professor Carlos disse que convidará os integrantes do Conselho para as reuniões da Comissão de Cultura da Câmara, o que estreitará as relações e evitará futuras situações como essa.




