Nascido nos Estados Unidos há mais de um século, o blues atravessou gerações, fronteiras e estilos musicais. Muito além de um gênero associado à guitarra, aos vocais marcantes e às tradicionais estruturas de 12 compassos, o blues está na origem de boa parte da música popular que se consolidou ao longo do século 20. Em Paranavaí e região, essa influência também encontra espaço, ainda que a cidade não seja tradicionalmente reconhecida como um polo do gênero.
Para o músico Thiago Guglielmi, que atua há 20 anos no cenário musical, a relação entre o blues e o público brasileiro é muito mais profunda do que pode parecer à primeira vista. Ele lembra que o gênero é frequentemente chamado de “mãe do rock and roll” e que sua influência chegou ao Brasil por diferentes caminhos, muitas vezes sem que o público percebesse.
Segundo Guglielmi, a trajetória do blues passa diretamente pela transformação da música popular. Ele cita a Jovem Guarda, Renato e Seus Blue Caps, Beatles, Beach Boys e Raul Seixas como exemplos de artistas que, de diferentes maneiras, incorporaram elementos derivados do blues e do rock and roll.
“De maneira objetiva, talvez a gente perceba o blues na música popular em solos de guitarra, em alguma passagem harmônica ou quando o artista decide fazer um blues”, explica.
Do campo para diferentes gerações
Para entender a força do gênero, porém, Guglielmi propõe olhar também para suas origens sociais. O blues nasceu entre comunidades negras norte-americanas submetidas à exploração e à escravidão, carregando desde o início temas relacionados à dor, ao trabalho, às relações humanas e à vida cotidiana.
É justamente nesse ponto que o músico encontra uma aproximação curiosa com manifestações da música brasileira, especialmente a moda de viola e o chamado sertanejo raiz.
“O blues, assim como a moda de viola e o chamado sertanejo raiz, veio do campo, do trabalho braçal, de vidas sofridas e, no caso do blues, da exploração escravocrata”, afirma.
Construindo um público em Paranavaí
A presença do blues em Paranavaí também é resultado de um processo gradual. Depois de retornar à cidade, em 2016, após um período trabalhando fora com o Montanas Trio, Guglielmi passou a promover, ao lado de outros músicos, eventos e sessões de jam.
O termo “jam session”, em inglês, define um encontro informal de músicos que se reúnem para tocar e improvisar juntos sem ensaio prévio ou repertório fixo. O foco principal é a espontaneidade, a troca de ideias e a diversão coletiva.
As apresentações foram ajudando a aproximar o público do gênero. Nem todas as experiências funcionaram da mesma maneira, mas a repetição dos encontros permitiu que novas pessoas tivessem contato com o blues.
Posteriormente, foi criado o projeto Guglielmi Blues Convida, reunindo repertórios de blues, rock, funk e soul. A proposta ajudou a apresentar o gênero por meio de diferentes sonoridades, permitindo que o público reconhecesse elementos do blues mesmo quando eles apareciam misturados a outras referências.
“Acho que esse processo acontece com o público quando está diante de um show diverso de blues, tipo, ‘Ah, isso é blues’, reconhecendo e se divertindo”, explica.
Uma cena musical que mudou
Na avaliação do músico, Paranavaí passou por mudanças importantes na forma de fomentar a cultura ao longo das últimas duas décadas. Para ele, a continuidade de políticas culturais tem contribuído para ampliar as oportunidades de artistas locais.
Ele destaca a existência de iniciativas públicas voltadas à contratação de artistas locais, além de programas e editais que permitem que músicos e outros agentes culturais desenvolvam projetos para a população.
Na comparação com o cenário de cerca de 20 anos atrás, a principal mudança estaria justamente na disponibilidade de recursos e mecanismos de incentivo. Ainda assim, ele avalia que há espaço para avançar, principalmente na iniciativa privada e na criação de uma programação noturna mais voltada à música, aos espetáculos e ao entretenimento.
Por onde começar a ouvir blues?
Para quem ainda não teve contato com o gênero, Thiago não hesita na indicação: B.B. King.
Considerado um dos maiores nomes da história do blues, o guitarrista norte-americano marcou gerações com seu estilo de tocar, sua voz e a forma como transformou a guitarra em uma extensão da interpretação.
Paranavaí pode ampliar seu espaço na música autoral
Para Guglielmi, o futuro da cena musical de Paranavaí depende de uma combinação entre políticas públicas, organização dos artistas e, principalmente, participação do público.
Na avaliação dele, é necessário continuar ampliando os recursos destinados à cultura, mas também tornar os editais mais acessíveis e compatíveis com a realidade financeira dos projetos.
“Temos que acreditar que, se o público não tiver a chance de ouvir algo diferente, ele nunca vai curtir algo diferente”, defende.



