As praias de água doce que atraem turistas ao Noroeste do Paraná estão dando lugar a uma paisagem diferente neste mês de outubro. O avanço do Rio Paraná, associado ao volume de chuvas registrado nas últimas semanas, encobriu faixas de areia, reduziu as áreas disponíveis para lazer e alterou a rotina de quem vive do turismo em municípios como Porto Rico e São Pedro do Paraná. O cenário preocupa comerciantes, donos de hotéis, restaurantes, operadores de passeios e outros profissionais que dependem da movimentação de visitantes.
Em Porto Rico, um dos principais destinos turísticos da região, o nível do rio chegou a aproximadamente quatro metros acima do normal, segundo o secretário municipal de Turismo, Murilo Góis. A Praia Santa Rosa, um dos pontos mais conhecidos do município, está praticamente toda encoberta pela água e outras praias também foram atingidas pela elevação.
A situação ocorre justamente em um período de preparação para a temporada de calor, quando os municípios esperam ampliar o movimento de visitantes e os empreendedores começam a se organizar para receber turistas nos fins de semana e feriados.
Além de modificar a paisagem, a cheia interfere diretamente nas atividades de lazer. Com as praias comprometidas e a ocorrência de chuvas frequentes, o número de visitantes diminuiu, e os riscos para quem pretende navegar pelo rio também aumentaram.
Hotéis registram cancelamentos e comércio sente os efeitos
O impacto já aparece nas reservas de hospedagem. Segundo Góis, Odair Lopes, presidente da Associação Comercial de Porto Rico e proprietário do Porto Rico Aqua Park Resort Hotel, relatou um número expressivo de cancelamentos nos últimos dias em razão das chuvas e da cheia do rio.
A redução no fluxo de visitantes preocupa os empreendedores que se preparavam para o início da temporada turística. Em Porto Rico, a atividade movimenta uma cadeia de negócios que vai além da hospedagem, envolvendo restaurantes, mercados, lojas, prestadores de serviços, marinas, aluguel de embarcações e passeios náuticos.
Quando o turista deixa de viajar ou cancela uma reserva, o efeito pode se espalhar por diferentes setores. A hospedagem perde ocupação, os restaurantes recebem menos clientes e os trabalhadores que dependem dos passeios e das atividades de lazer podem ter a renda reduzida.
“Porto Rico respira turismo”, afirma o secretário municipal. Segundo ele, a expectativa é que as chuvas diminuam e o nível do rio volte gradualmente ao normal, permitindo que os visitantes retornem e movimentem o comércio local.
Até o momento, não foi apresentada uma estimativa financeira consolidada dos prejuízos causados pela cheia. Ainda assim, os cancelamentos relatados pelo setor de hospedagem e a redução do número de visitantes indicam que os efeitos já são sentidos na economia do município.
Em São Pedro do Paraná, praias estão cobertas e barracas permanecem fechadas
A situação também afeta São Pedro do Paraná, especialmente o distrito de Porto São José, conhecido pelas praias de água doce, ilhas e atividades ligadas à pesca e à navegação.
De acordo com o secretário municipal de Viação, Obras e Urbanismo, Usiel Baldoino da Rosa, o grande volume de água encobriu as áreas de praia utilizadas pelos turistas. Com isso, as barracas instaladas nesses espaços estão fechadas, enquanto a estrutura da orla, até o momento, não havia sido afetada.
As ilhas são as áreas mais impactadas pela elevação do rio. Segundo o secretário, os meios de locomoção ainda permitem o deslocamento de pessoas entre os locais, sem registro de áreas de alagamento que impeçam completamente o acesso.
Já na zona rural, as chuvas têm provocado erosões em estradas. As equipes municipais utilizam tratores para corrigir os pontos danificados, enquanto bueiros também apresentam problemas devido ao acúmulo de terra carregada pela água.
Embora o município não tenha registrado, até o momento do relato, pontos de alagamento com danos à infraestrutura, a situação exige acompanhamento. O fechamento das barracas e a cobertura das praias já interferem nas atividades turísticas e na rotina de quem trabalha nesses espaços.
A Prefeitura informou que divulga orientações à população sobre cuidados e situações que devem ser evitadas. O município também mantém contato com a Defesa Civil e o Corpo de Bombeiros e conta com um plano de contingência para situações de agravamento.

Rio mais alto exige cuidados redobrados na navegação
Em Porto Rico, a preocupação vai além dos impactos econômicos. A cheia altera as condições de navegação e aumenta os riscos para moradores e visitantes que utilizam embarcações.
Segundo Murilo Góis, a correnteza está muito forte e a água apresenta maior quantidade de sedimentos e resíduos em razão do volume de água. Essas condições tornam a navegação mais perigosa, especialmente durante temporais, com chuva e ventos fortes.
A Secretaria Municipal de Turismo acompanha a situação em conjunto com a Defesa Civil e o Corpo de Bombeiros. A orientação é que os navegadores redobrem os cuidados, utilizem coletes salva-vidas, procurem locais seguros para atracar e evitem sair com o tempo nublado ou diante da possibilidade de tempestades.
A atenção também deve ser mantida nas margens e nas áreas de praia. Com a água cobrindo trechos que normalmente ficam expostos, as condições de acesso podem mudar, e pontos familiares aos frequentadores podem apresentar riscos diferentes dos habituais.
Em São Pedro do Paraná, a Prefeitura também tem divulgado recomendações para evitar situações perigosas. O acompanhamento das condições do rio e das previsões meteorológicas é importante para orientar tanto os moradores quanto os visitantes.
El Niño aumenta a preocupação para os próximos meses
A perspectiva para o restante da primavera também exige atenção. Segundo a meteorologista Ângela Costa, a previsão climática sazonal elaborada pelo Sistema de Tecnologia e Monitoramento Ambiental do Paraná (Simepar) indica tendência de chuvas acima da média no Estado até dezembro de 2026, além de temperaturas acima da média em novembro e dezembro.
O cenário está associado à influência do El Niño, fenômeno caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. A meteorologista ressalta que a previsão para períodos mais longos não determina exatamente quando ou onde vai chover e a tendência é de precipitações distribuídas de maneira irregular, com possibilidade de períodos de chuva intensa intercalados por intervalos de estiagem.
Durante a primavera, aumenta também a possibilidade de temporais concentrados em curtos períodos, acompanhados de rajadas de vento, granizo e descargas elétricas. No Noroeste do Paraná, esse tipo de ocorrência pode provocar alagamentos, elevação rápida de córregos, erosão e danos em estradas rurais e pontes.
Para os municípios turísticos, a incerteza representa um desafio adicional. Além de lidar com os efeitos imediatos da cheia, os empreendedores precisam planejar a temporada sem saber com precisão quando as condições do rio e do tempo estarão favoráveis à retomada das atividades.
Cheia do Paraná depende das chuvas em toda a bacia
Embora as chuvas registradas no Noroeste contribuam para o cenário, a elevação do Rio Paraná não depende apenas da precipitação nas proximidades de Porto Rico e São Pedro do Paraná.
De acordo com Ângela Costa, é necessário considerar o volume de chuva acumulado em diferentes bacias hidrográficas, incluindo as dos rios Paraná, Iguaçu, Ivaí, Piquiri e Paranapanema, além das contribuições de afluentes localizados fora do Estado.
A água que cai em regiões distantes pode levar horas ou dias para chegar ao trecho do rio que passa pelos municípios turísticos. Ao escoar pela superfície, infiltrar no solo e alcançar outros cursos d’água, ela contribui para aumentar a vazão e elevar o nível do Paraná, mesmo quando não está chovendo nas cidades próximas às margens.

















