A elevação do nível do Rio Paraná e as chuvas frequentes já provocam impactos na economia de municípios turísticos do Noroeste do Estado. Em Porto São José, distrito de São Pedro do Paraná, pescadores relatam dificuldades para trabalhar, prejuízos com equipamentos e erosão nas margens das ilhas. Em Porto Rico, empresários apontam queda no movimento de turistas, cancelamentos de reservas e redução na procura por serviços náuticos e imóveis.
A situação preocupa porque boa parte da economia local depende das atividades relacionadas ao rio. Quando chove, muitos visitantes adiam os passeios de barco e as estadias. Com o nível da água elevado, as prainhas de água doce ficam encobertas, reduzindo as opções de lazer que atraem turistas para a região.
O reflexo chega a diferentes setores, da pesca profissional aos restaurantes, pousadas, marinas, lojas de conveniência e negócios imobiliários. Para quem depende diretamente dessas atividades, a preocupação aumenta com a proximidade da alta temporada, que costuma ganhar força a partir de novembro.
Pescadores enfrentam prejuízos e dificuldades para trabalhar
Na Ilha Catarina, em Porto São José, o pescador Edimar Schmith da Silva Ângulo Junio, de 32 anos, sente os efeitos da cheia na rotina de trabalho. Segundo ele, a água carrega sujeira, galhos e outros materiais que se acumulam nas redes e nos espinhéis, equipamentos utilizados na pesca.
“Quando o rio enche, desce muita sujeira. Não tem como armar as redes com espinhel, porque arrebenta tudo por causa da sujeira. Os peixes também não param, não comem e fica difícil pegar”, relata.
O problema vai além da dificuldade de capturar os peixes. Quando as redes ficam presas ou são danificadas pela correnteza e pelos resíduos carregados pelo rio, o pescador pode perder equipamentos e precisa investir tempo e dinheiro para recuperá-los ou substituí-los.

Edimar explica que a situação compromete a renda de quem vive da atividade. “A gente pesca para vender. A gente perde muito trabalho e fica ruim para ganhar um dinheirinho. Quem depende do rio não tem vida fácil”, afirma.
O pescador também aponta dificuldades relacionadas ao comportamento dos peixes e ao período de abertura da pesca. Na avaliação dele, as mudanças no nível da água interferem na atividade e tornam a captura mais difícil em determinados momentos.
Erosão nas ilhas dificulta acesso de moradores
Além dos prejuízos com a pesca, a elevação do nível do rio preocupa moradores das ilhas. Edimar relata que o barranco próximo à sua casa, na ponta da Ilha Catarina, está cedendo com a força da água. Árvores localizadas nas margens também estão caindo no rio.
O avanço da erosão compromete até mesmo a estrutura que ele construiu para facilitar o acesso à propriedade. A rampa é importante para a movimentação da família e para o embarque e desembarque do filho, que utiliza transporte escolar por barco.
“Eu fiz uma rampa boa para a gente ter acesso melhor, para subir e descer, porque meu filho estuda e o barco da escola precisa encostar. Só que a correnteza está quebrando tudo. É difícil”, conta.
Marinas sentem queda nos serviços e nas vendas
Em Porto Rico, o proprietário de uma garagem náutica, Agnaldo Matheus da Silva, explica que a elevação do nível do rio pode facilitar a navegação de embarcações de maior porte. O principal problema econômico, no entanto, está na redução do movimento turístico provocada pelas chuvas e pelo desaparecimento temporário das praias.
Segundo ele, os passeios de barco programados para os fins de semana são frequentemente cancelados quando a previsão indica chuva. “Como é uma região turística, muito visitada por causa das praias de água doce, quando elas ficam debaixo da água o turista não desce para cá. Se vier, vai ter que ficar dentro da embarcação o tempo todo e, com o período de chuva, muitos cancelam essas viagens”, explica.

A redução no fluxo de visitantes afeta diretamente os serviços oferecidos pela marina. Com menos embarcações entrando e saindo da água, a cobrança pelo serviço de colocação e retirada dos barcos também diminui.
Para o empresário, a permanência do rio em nível elevado durante a alta temporada pode ampliar os prejuízos. “Se o rio continuar cheio e as praias permanecerem submersas, vai diminuir muito o número de turistas. Muita gente que viria para cá pode preferir ir para o litoral, porque não adianta vir para ficar dentro de casa, de um hotel ou de uma pousada se as prainhas, que são o cartão-postal e o motivo que atrai as pessoas, estiverem debaixo da água”, avalia.
Pousadas e mercado imobiliário também são afetados
O impacto da chuva também chega às hospedagens e aos negócios imobiliários. Gestor de uma pousada em Porto Rico, Luiz Gustavo Sampaio afirma que as condições do tempo têm provocado adiamentos e cancelamentos de locações de pousadas e casas.
A procura por imóveis também foi afetada. Segundo ele, clientes que haviam programado viagens para conhecer terrenos e avaliar oportunidades de investimento estão adiando as visitas.

Ele estima que cerca de 80% da economia local dependa do turismo. Por isso, quando o fluxo de visitantes diminui, os efeitos se espalham por diferentes atividades econômicas. A pousada também trabalha com pacotes de pesca, segmento prejudicado pelas chuvas e pelas condições do rio.
Para reduzir os transtornos aos clientes, o gestor afirma que procura informar antecipadamente sobre a previsão do tempo, as condições das praias e das ilhas e a situação da pescaria. A intenção é evitar que pessoas que viajam de longe cheguem ao município sem saber das mudanças.
A preocupação é especialmente grande com a aproximação da temporada de verão. Novembro marca o início de um período importante para o turismo regional, mas, se as praias continuarem submersas e as chuvas dificultarem os passeios, a expectativa é de que o movimento fique abaixo do esperado.

















