A digitalização avançou sobre praticamente todas as etapas do recrutamento. Currículos são recebidos online, entrevistas podem acontecer a distância e informações sobre candidatos circulam entre diferentes ferramentas. Depois da aprovação, porém, parte desse ganho de eficiência pode desaparecer: documentos precisam ser recebidos, conferidos, informações são novamente cadastradas e, quando os sistemas não conversam, dados que já existem acabam sendo transferidos manualmente de uma plataforma para outra.
A dimensão dessa burocracia não é pequena. Um levantamento citado pela Society for Human Resource Management mostrou que cerca de 40% das atividades de onboarding eram dedicadas ao preenchimento de documentos e procedimentos de conformidade, enquanto a falta de tecnologia para automatizar a jornada aparecia entre as razões apontadas pelas organizações para dificuldades nessa etapa. Mais recentemente, a própria SHRM voltou a alertar que programas de integração ainda são frequentemente reduzidos a exercícios de preenchimento de papéis, apesar da possibilidade de automatizar parte do fluxo.
O desafio também já aparece em estudos brasileiros. Um estudo de pesquisadores da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), publicado em 2025 no Brazilian Journal of Production Engineering, identificou erros de preenchimento e retrabalho entre os fatores que podem atrasar a admissão de novos profissionais. A pesquisa analisou a integração de sistemas em uma empresa de recrutamento e apontou que a automação do fluxo de informações pode reduzir tarefas manuais e melhorar a consistência dos dados.
Para Patricia Suzuki, Diretora de RH da Redarbor Brasil, detentora do Pandapé, esses gargalos mostram que existe uma diferença importante entre ter documentos em formato digital e possuir um processo efetivamente automatizado.
“Se o candidato envia um documento pelo celular, mas alguém precisa abrir o arquivo, localizar cada informação e digitá-la novamente em outro sistema, o processo ainda depende essencialmente de trabalho manual. A transformação acontece quando o dado é capturado uma vez e consegue seguir pela jornada sem precisar ser refeito em cada etapa”, afirma.
Essa distinção ganha importância principalmente em organizações que realizam admissões em volume. Uma tarefa de poucos minutos pode parecer irrelevante quando envolve um único profissional, mas se multiplica rapidamente quando uma rede abre dezenas de lojas, uma indústria amplia turnos ou uma companhia precisa incorporar centenas de pessoas em um período curto. Nesses casos, conferir campo por campo, repetir cadastros e corrigir inconsistências deixa de ser apenas uma rotina administrativa e pode se transformar em um gargalo entre a escolha do candidato e sua entrada efetiva.
A documentação necessária também ajuda a explicar a complexidade dessa fase. Processos admissionais podem envolver documentos de identificação, dados cadastrais, informações trabalhistas e outros registros que precisam estar legíveis, completos e consistentes. Com isso, digitalizar a entrega não elimina a necessidade de validar as informações recebidas.
É nesse intervalo que tecnologias de OCR, sigla em inglês para reconhecimento óptico de caracteres, ganham espaço. O recurso permite identificar informações contidas em imagens e documentos e convertê-las em dados estruturados, reduzindo a necessidade de transcrição manual. O potencial, porém, vai além da leitura automática: o ganho mais relevante ocorre quando esses dados conseguem alimentar as etapas seguintes do fluxo sem novas intervenções.
“Automatizar a leitura de um documento resolve apenas uma parte do problema. Se depois alguém ainda precisa copiar aquela informação para outro lugar, o gargalo foi deslocado, não eliminado. O ganho real aparece quando recrutamento, documentação e admissão passam a fazer parte de uma jornada conectada”, explica Patricia.
Na prática, o modelo mais eficiente não retira o RH do processo, mas altera onde o trabalho humano é empregado. Em vez de dedicar tempo à transcrição de informações previsíveis, a equipe pode concentrar atenção nos documentos incompletos, inconsistências ou situações que realmente exigem análise. Isso reduz o número de intervenções repetitivas sem eliminar o controle sobre uma etapa diretamente ligada à conformidade trabalhista.
A experiência do novo profissional também é impactada. Entre o aceite da proposta e o primeiro dia, a percepção sobre a futura empregadora continua sendo formada. Solicitar repetidamente informações já fornecidas, criar idas e vindas por divergências simples ou deixar o candidato sem clareza sobre pendências pode comprometer uma jornada que havia funcionado bem durante toda a seleção.
Para Patricia, esse período precisa ser entendido como parte da experiência de contratação e não apenas como uma obrigação administrativa. “O candidato não separa recrutamento e admissão. Para ele, tudo faz parte da mesma relação com a empresa. Se a seleção foi rápida e organizada, mas a etapa seguinte vira uma sequência de solicitações e correções, essa percepção de eficiência se perde.”
No Pandapé, a integração de OCR com admissão digital foi pensada justamente para solucionar esses gargalos. A funcionalidade permite a leitura automática de documentos e a conclusão da admissão dentro do próprio sistema, em um fluxo que também contempla as necessidades burocráticas e de conformidade.
A mudança pode parecer menos visível do que a chegada de inteligência artificial às entrevistas ou à análise de candidatos, mas toca uma rotina que se repete em praticamente toda nova contratação. Para Patricia, é justamente por isso que a admissão tende a se tornar uma das próximas frentes de automação do RH.
“Durante muito tempo, digitalizar significou tirar o papel da mesa. Agora o desafio é liberar o profissional da necessidade de fazer manualmente a ponte entre informações que os próprios sistemas já poderiam compartilhar. É nesse ponto que a tecnologia deixa de apenas organizar documentos e começa efetivamente a redesenhar o processo”, conclui Patrícia.











