Mais notícias...

Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors

Mais notícias...

Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors
Compartilhe:
Joeci Camargo conta a história do Justiça no Bairro e como as ações se desenvolveram no Paraná Foto: Ivan Fuquini

ENTREVISTA EXCLUSIVA

Desembargadora do TJPR enaltece programa Justiça no Bairro: rapidez e transparência

Na manhã desta sexta-feira (29), Joeci Camargo visitou o Diário do Noroeste e falou sobre a atuação do Poder Judiciário na solução de problemas da população

Um homem bateu palmas no portão de casa. 

– Preciso de um prato de comida.

O morador olhou atentamente para aquela figura suja, maltrapilha, com cabelos descuidados e unhas que faziam curvas, de tão longas.

– Você precisa de mais do que um prato de comida. Entre, vamos cuidar de você.

O banho, a troca de roupas, o corte de cabelo, o reparo nas unhas e a refeição aproximaram o andarilho e o anfitrião. Tornaram-se amigos. 

Mas a transformação ainda não estava completa. Para alcançar a dignidade plena, precisava ter em mãos os documentos pessoais que nunca tivera. 

Eles recorreram ao programa Justiça no Bairro, desenvolvido pelo Tribunal de Justiça do Paraná (TJPR) em parceria com o Sesc Paraná e outras entidades. Os dois foram ao local de atendimento em Cascavel e conseguiram mais do que a identificação oficial. A partir daquele momento, o amigo se tornou curador e assumiu a responsabilidade de zelar pelo bem-estar físico e financeiro do curatelado.

Esse caso aconteceu em Cascavel, na região Oeste do estado, e foi narrado pela desembargadora do TJPR Joeci Camargo, idealizadora e coordenadora do Justiça no Bairro, em entrevista exclusiva ao Diário do Noroeste, na manhã desta sexta-feira (29).

A juíza está em Paranavaí para acompanhar mais uma edição do programa no município, que começou anteontem (28) e termina neste sábado (30), com emissão de documentos e certidões, serviços jurídicos e atendimentos de saúde, entre outras atividades na sede da Universidade Paranaense (Unipar), das 9h às 17h.

Programa do TJPR leva serviços gratuitos para a comunidade paranaense
Foto: Ivan Fuquini

Confira a seguir os principais trechos da entrevista com Joeci Camargo.

Diário do Noroeste: Como o programa começou e qual é a essência dele?

Joeci Camargo: Tudo começou há muito tempo. São alguns anos de trabalho, antes mesmo de eu entrar na magistratura, porque a ideia sempre foi ser advogada. O objetivo era lidar com as famílias mais vulneráveis, aquelas famílias que não tinham acesso à justiça. 

Quando passei no concurso, entendi: eu sou juíza agora. Aí, toda a minha carreira eu dediquei a portas abertas. A atender a população onde ela estivesse. Porque quando você vai para o interior, você faz parte da comunidade. E como integrante daquela comunidade, você passa a vivenciar as dificuldades das famílias, a dificuldade das pessoas, não só as dificuldades, mas as alegrias, os sonhos.

Criei o programa Justiça no Bairro. Então qual era a ideia? Atender a população em finais de semana, levar aquela população para o lugar onde a prefeitura mantinha atendimento, onde eles sabiam que ali seriam atendidos. E em Curitiba nós temos as Ruas da Cidadania, onde todos os programas estão instituídos em prol do cidadão, principalmente do cidadão vulnerável. 

Fizemos a proposta para que a prefeitura permanecesse com todos os serviços abertos no sábado, porque nós lá estaríamos. Nós, a Defensoria Pública, Ministério Público, três faculdades e até a Secretaria de Saúde para poder atender. Eu teria alunos para poder atender, e eu estaria lá, o Ministério Público, para tudo aquilo que as pessoas necessitassem, fosse um simples divórcio, nós pudéssemos fazer ali e as partes já sairiam dali com tudo resolvido. Ou seja, justiça feita em horas. 

Então isso era uma ideia que foi nascendo e colocamos em prática.

DN: Quanto tempo desde o primeiro pensamento, a primeira ideia, até a prática?

Joeci Camargo: O pensamento começou em 1997. Eu tinha focado só na minha Vara, que era na 4ª Vara da Família. Os meus processos andavam muito rápido, porque tudo virava acordo e eu atendia a população vulnerável com muita rapidez, porque eu fazia audiência de 15 em 15 minutos e aquilo foi crescendo, foi crescendo, foi crescendo e em 2003 nós fizemos o primeiro Justiça no Bairro já institucionalizado, daí era para atender a população. 

DN: O primeiro foi em Curitiba. Quando é que vocês entenderam que poderiam expandir e alcançar outros municípios também do estado?

Joeci Camargo: Em 2003 e 2004, centralizei nas Ruas da Cidadania. Então era de 15 em 15 dias. Então, final de semana sim, final de semana não. E eu percorria toda Curitiba, e toda a região metropolitana afluía através dos ônibus que os conduziam. Então eles economizavam e no sábado eles tinham carteira de identidade, eles tinham retificação, eles tinham curatela, eles tinham tudo. Tudo que tem hoje na justiça já tinha naquela época. E ali fui indo. 

A juíza de Piraquara disse assim: “Olha, eu tenho muita audiência e precisava de ajuda.” Eu disse: “Eu te ajudo.” Nós fomos com os professores para Piraquara e foi um sucesso absoluto. 

Eu propus, na época, pro Darci Piana [vice-governador e presidente Sistema Fecomércio Sesc Senac PR]: “Vamos fazer os dois programas trabalharem juntos, o Sesc Cidadão e o Justiça no Bairro. A gente divide, eu fico com a parte toda da justiça e o Sesc Cidadão vai ficar com toda a parte de serviços. E vamos celebrar o casamento coletivo”. [Ele respondeu:] “Então vamos, vamos”. E aí essa parceria começou mesmo em 2005, mas ela se formalizou em 2006. Então nós estamos há 20 anos juntos. 

DN: A Justiça também tem o papel o papel de conciliadora, ou reconciliadora, e atua como mediadora…

Joeci Camargo: Sim, o nosso objetivo, quando você fala em audiência consensual, é isso, é o momento em que você vai trazer à tona as tuas aflições, as tuas alegrias, e vai mediar aquele conflito que pode se transformar numa paz imensa, num resultado positivo, ou divorcia ou eles retomam, mais ou menos isso.

DN: Com esse tempo todo do programa, dá para dizer que as dores das pessoas ainda são as mesmas ou com o tempo as demandas foram se transformando?

Joeci Camargo: O contexto familiar de desestrutura, ele não muda, ele aumenta pelo número da população. Então nós poderíamos dizer assim: o que era divórcio, o que era o desquite 50 anos atrás, é a mesma situação. Existia violência doméstica? Já existia lá. Hoje existe mais do que antes? Talvez a mesma coisa, na proporcionalidade do aumento da população. Na divulgação e na proporcionalidade da divulgação. O que muda é a forma como as coisas acontecem, só isso, mas elas acontecem.

DN: Como a Justiça tem acompanhado essa realidade?

Joeci Camargo: A Justiça se tornou muito rápida. Hoje é tudo eletrônico. Hoje o mundo é digital. Então, em virtude disso, tudo é muito rápido. Tudo esgota muito rápido. Então, o que hoje é a nossa preocupação, pelo menos o que nós vemos no Justiça no Bairro, é a forma transparente com que nós trabalhamos com a população.

DN: E o casamento coletivo?

Joeci Camargo: É emocionante, a cereja do bolo. Com o casamento, você diz assim: “É possível ser feliz, é possível”. Então, durante o dia [dentro do programa Justiça no Bairro], estou divorciando, estou arrumando a vida, estabelecendo a guarda, regulamentando a visita, estamos vendo alimentos e ao final do dia nós estamos casando essas mesmas pessoas. Muitas delas passam durante o dia obtendo uma entrega de uma prestação jurisdicional e ao final do dia elas acabam tendo um momento de família, ou seja, a concretização real de tudo aquilo que vieram buscar. E aí eu posso celebrar a alegria deles. É um momento de felicidade.

Fonte: Reinaldo Silva - da redação

Compartilhe: