“É muito importante trazer o protagonismo indígena, principalmente no processo de reencantar, para limpar ruídos históricos da própria colonização… Reencantar os não indígenas para não terem preconceito, não terem discriminação e olharem o indígena contemporâneo com respeito e dignidade.”
As palavras do presidente da Associação Indigenista de Maringá (Assindi), Tadeu Kaingang, destacam um conceito amplamente aplicado em contextos pedagógicos e filosóficos. Reencantar significa renovar a educação, o conhecimento e a relação com o mundo por meio da cultura, das artes e dos saberes ancestrais.
Na manhã desta quarta-feira (22), o presidente da Assindi ministrou palestra no campus paranavaiense do Instituto Federal do Paraná (IFPR), atividade alusiva ao Dia dos Povos Indígenas, celebrado em 19 de abril.
“A gente tem feito esse trabalho até mesmo com os próprios indígenas, porque eles têm olhado esse lado não indígena como atraente. Então, a gente tem feito também esse trabalho de conscientizar, de mostrar que é bom, que eles são resistentes, trazem estratégias e ressignificam o tempo todo.”
O discurso de Tadeu Kaingang está diretamente ligado ao tema proposto pelo IFPR de Paranavaí, “Povos indígenas e o direito à cidade”, e ganha reforço nos argumentos da antropóloga Driéli Vieira, também da Assindi.

Foto: Ivan Fuquini
“A gente ainda espera se deparar com indígenas que vivam na floresta e que se alimentem da caça, da pesca, e hoje a realidade é completamente diferente. O censo de 2022 nos mostrou que a maioria, mais de 50% da população indígena, vive no contexto urbano.”
A constatação gera questionamento. As cidades da região estão preparadas para receber essa população. A antropóloga responde: “Infelizmente não”. Em seguida, exemplifica: “A gente ainda não tem serviços de acolhimento voltados para essa população respeitando o seu modo de vida. Mesmo estando inseridos no contexto urbano, têm as suas particularidades culturais”.
Driéli insiste: situações de preconceito e discriminação são comuns e geram problemas de saúde mental. Os casos de suicídio se tornaram frequentes em razão do despreparo da sociedade.
Ela recorre à antropologia e fala do conceito de autoimagem. “A população indígena se enxerga a partir do olhar do outro. Então, se meu olhar é carregado de preconceito, se olho como uma pessoa que não tem direitos, é assim que ela vai se ver, é assim que vai se comportar.”

Foto: Ivan Fuquini
IFPR
Professor de sociologia do IFPR de Paranavaí, Josimar Priori defende a inserção de adolescentes e jovens nesse debate, por isso avalia o evento de quarta-feira como positivo. “Eles estão construindo as bases para atuação social nas diferentes esferas.”
Acrescenta: “Os jovens já são agentes sociais, possuem cultura, costumes, visões de mundo, então é muito importante que sejam munidos, sejam instruídos com informação e com uma educação de qualidade”.
O professor explica que o Instituto Federal busca promover educação integral, abrangendo todas as dimensões possíveis do conhecimento, por exemplo, científica, artística, esportiva, social e cultural. “Todas precisam estar interligadas, interconectadas, para que as pessoas sejam formadas para uma vida integral também, para que as pessoas consigam perceber as relações entre as coisas.”



