No extenso quintal, minha mãe plantava buchas, flores diversas e um aboboral de ramas verde-escuro a quarar o todo. Este vivia florido. Eram flores viçosas, enormes, que pareciam cornetas a cantarem a beleza.
As buchas verdes serviam-me de bois nas brincadeiras de fazendeiro, mas as flores de abóbora, todos os dias, enfeitavam os cabelos da minha irmã. Era apaixonada por elas e raramente saía de casa sem atá-las com grampos aos cabelos loiros e cacheados.
Fechando os olhos para o agora e os abrindo para o ontem, a lembrança a traz de volta e a vejo alegre. É toda risonha. Olha-me e passa a estender, com toda a abertura dos braços, a barra do seu vestido também florido.
Ri mostrando seus dentinhos de menina, seus lábios rosados, seus cabelos em cachos e, claro, as duas belas flores de um amarelo carregado a lhe enfeitar o todo. Estava ali a rainha do aboboral – apelido que ela mesma se pôs e que os de casa aceitaram, tão mimosa era.
Em posição de bailarina ao se preparar para o valseio, postava-se de frente ao espelho como se estivesse num palco. Bailava as mãos para o alto e para os lados, contorcia-se como a seguir com o corpo o som da mais linda orquestra e, nesse bailado de dois espectadores – a mãe e eu –, deixava-se levar pela felicidade.
Parecia que as flores compunham suas asas.
Foram muitas as flores consumidas para esse fim e, também, foram muitas as abóboras que deixam de vingar por tê-las cortado. Até que minha mãe pediu explicações ao verdureiro.
Não queria podar a alegria da menina, mas precisava garantir a produção, afinal, a família exigia muita comida e as abóboras em salada, cozidas, refogadas, assadas, em doce, ajudavam a suprir as necessidades.
Aí veio a resposta: flores masculinas e femininas nascem na mesma ordem e diferenciá-las é fácil – disse ele: a fêmea mostra um pequeno ovário na base do cálice e o macho apresenta um caule fino e comprido. O vento se encarrega de fazer entre ambos a fertilização. E o conselho: ao apanhar a flor, procure pelo casal, assim não ferirá as demais.
No dia seguinte, ao me levantar, vi minha mãe curvada nas ramas a conferir e a colher duas flores bem bonitas. A princípio enfeitou-se ali mesmo, mas depois as retirou e as trouxe para que ela, sim, as prendesse nos próprios cabelos.
Vi nos gestos dela naquela manhã, uma vontade tremenda de se sentir tão bela e jovial como a pequena filha…



