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Morcego da espécie Artibeus lituratus
Viva Bem

MUITO ALÉM DOS VAMPIROS

Estudo revela que Paraná abriga 71 espécies de morcegos e ajuda a derrubar mitos

Pesquisa da UEM atualiza lista de espécies registradas no Estado, mostra a importância ecológica desses animais e revela que o Noroeste mantém uma diversidade surpreendente

Para muita gente, basta um morcego aparecer ao anoitecer para surgir o medo. A imagem construída ao longo dos anos pelo cinema e pelas histórias populares fez com que esses mamíferos fossem associados quase exclusivamente ao sangue, à escuridão e às doenças, mas a ciência mostra um cenário completamente diferente.

Uma pesquisa realizada pela professora doutora em biologia pela Universidade Estadual de Maringá (UEM), Nádia Sabchuk, atualizou a lista de morcegos registrados no Paraná e revelou que o Estado possui atualmente 71 espécies conhecidas — oito a mais do que o levantamento anterior, publicado em 2010.

Pesquisadora Nádia Sabchuck durante os estudos com morcegos

Noroeste surpreende pela diversidade

Os morcegos vivem praticamente em todos os ambientes do planeta, com exceção da Antártica. No Paraná, a região Norte lidera em número de espécies conhecidas, principalmente porque concentra universidades e pesquisas de longa duração. Mas um dado chamou a atenção dos pesquisadores: o Noroeste também apresentou uma diversidade expressiva.

Segundo o levantamento, aproximadamente 25 espécies já foram registradas na região. Para a pesquisadora, o resultado é especialmente positivo porque boa parte da vegetação nativa foi substituída por áreas agrícolas. “É uma surpresa positiva. Mostra que as espécies ainda encontram abrigo e alimento.”

Nem todos vivem em cavernas

Ao contrário do que muita gente imagina, nem todos os morcegos vivem em cavernas. “Alguns vivem em grandes colônias no interior de cavernas, outros vivem em pequenas famílias em ocos de árvores ou outros locais mais protegidos. E claro, todo mundo conhece aqueles que fazem abrigo nas árvores, ou até mesmo no forro de casa, dentro da churrasqueira e literalmente, qualquer cantinho que eles encontrem pra se esconder de predadores”, explica.

A maioria não se alimenta de sangue

Talvez o maior mito envolvendo morcegos seja a alimentação. Segundo a pesquisadora, apenas três espécies em todo o mundo se alimentam de sangue. Dessas, duas consomem exclusivamente sangue de aves, enquanto apenas uma se alimenta do sangue de mamíferos.

A grande maioria possui uma dieta bastante diferente, há morcegos que comem frutas, outros se alimentam de insetos. Existem também espécies que se alimentam de néctar de flores, desempenhando papel semelhante ao dos beija-flores na polinização.

Entre as mais curiosas estão os morcegos pescadores, considerados por Nádia uma das espécies mais fascinantes encontradas no Paraná. “A coloração deles é linda, tem a pelagem alaranjada e costumam exalar um cheiro bem característico. Não sei bem como descrever este cheiro, mas é bem fácil de perceber em campo, então sabemos que há morcegos pescadores por perto”.

Pequenos animais que prestam grandes serviços

Mesmo passando despercebidos durante boa parte da noite, os morcegos realizam atividades fundamentais para o funcionamento dos ecossistemas. Ao consumir grandes quantidades de insetos, ajudam naturalmente no controle de pragas agrícolas, reduzindo prejuízos nas lavouras e diminuindo a necessidade do uso de defensivos. Segundo a pesquisadora, existem estudos que estimam que esse serviço ecológico representa uma economia de milhões de reais para a agricultura.

Já as espécies frugívoras espalham sementes enquanto voam, colaborando para a recuperação de áreas degradadas e o crescimento das florestas. Os morcegos que se alimentam de néctar também desempenham papel importante na polinização de diversas plantas, incluindo o agave, utilizado na produção da tequila.

E se um morcego aparecer em casa?

Apesar de raramente atacarem pessoas, os morcegos exigem alguns cuidados e, como qualquer outro mamífero, eles podem transmitir o vírus da raiva. Por isso, a recomendação é nunca tocar no animal, vivo ou morto, principalmente com as mãos desprotegidas. Caso haja contato, a orientação é procurar imediatamente uma Unidade Básica de Saúde (UBS).

Quando um morcego entra em uma residência, a solução costuma ser simples: apagar as luzes do ambiente e fechar o cômodo para que ele encontre sozinho o caminho de saída. Já se o animal estiver caído, desorientado ou com pouca reação, o indicado é acionar a Vigilância Epidemiológica ou o Centro de Controle de Zoonoses para que seja feita a avaliação adequada.

Conhecer para preservar

Para a pesquisadora, mudar a forma como a população enxerga os morcegos é um passo importante para a conservação da biodiversidade. Ela acredita que compreender o papel desses animais na natureza faz com que o medo dê lugar ao respeito.

“Entender que eles fazem parte do nosso ecossistema, assim como qualquer outro animal, muda o olhar das pessoas. Quando se perde um pouco do medo, é fascinante vê-los voando, caçando e cuidando uns dos outros. Entender e respeitar é a principal mensagem que eu gostaria de deixar.”

Fonte: Cibele Chacon - Da Redação

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