Posse do novo delegado-chefe será às 9h30 na OAB. Luiz Carlos Mânica passa a função para Marcelo Luiz Trevisan. Os dois falaram ao Diário do Noroeste abordando um balanço do trabalho e perspectivas
ADÃO RIBEIRO
Nesta quinta-feira (3), às 9h30, toma posse o novo delegado-chefe da 8ª Subdivisão Policial de Paranavaí (SDP), Marcelo Luiz Trevisan. Após 11 anos, o delegado Luiz Carlos Mânica deixa a função por aposentadoria. Em entrevista exclusiva ao Diário do Noroeste eles falam sobre segurança pública, situação carcerária, cumprimento de penas e ressocialização de presos, entre outros temas.
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Trevisan era delegado em Laranjeiras do Sul, onde também exercia a chefia da unidade. Ele chama a atenção para o papel da Polícia Civil. Lembra que a missão é investigar e prender eventuais criminosos.
Sobre a forma de cumprimento das penas, ressalta que o sistema atual possui lacunas em relação à lei vigente, datada dos anos 1980. A legislação prevê três fases da pena: fechado, semiaberto e aberto. Hoje, embora haja iniciativas bem-sucedidas (como é o caso de Paranavaí), o sistema se resume basicamente ao fechado. Portanto, analisa, ficam prejudicadas as fases de ressocialização (aberto e semiaberto).
Paranavaí vive uma fase de transição com alguns serviços sendo agregados no atendimento da Polícia Civil ao cidadão. Mânica esclarece que a estrutura de recepção ao público está totalmente separada da cadeia, hoje com acessos independentes e sob gestão do Departamento Penitenciário – Depen, da Secretaria de Justiça e Cidadania.
Ele também aponta melhorias no trato com os detentos, o que inclui assistência médica, psicológica, alimentação e até oportunidade de atividade para remissão da pena (geralmente redução do tempo de prisão por trabalho ou estudo), em parceria com o Conselho Comunitário de Segurança e outros órgãos de Estado.
Nova penitenciária – O delegado defende a construção de uma nova penitenciária para retirar a atual estrutura da área central da cidade ao lado de um grande centro de compras por onde passam milhares de pessoas. Por mais que tenha melhorado o tratamento, há sempre risco de fugas e aí entra a necessidade de uma penitenciária mais segura e distante de grandes concentrações urbanas.

Essa preocupação legítima nos remete ao dia 17 de dezembro de 2015 quando uma rebelião destruiu a estrutura carcerária, fez um agente de carceragem refém e colocou em risco a segurança da cidade. As forças de segurança e entidades conseguiram negociar o fim da rebelião, mas poderia ter sido outro desfecho, concorda o delegado agora aposentado.
Ele entende que é preciso conscientizar as pessoas e buscar recursos para uma nova penitenciária, separando totalmente a parte administrativa (delegacia) da cadeia. Aliás, a construção da nova delegacia já está prevista para o Jardim Oásis, na proposta de mudança de uma série de serviços públicos para o local.
Também favorável à construção de novas penitenciárias bem estruturadas, Trevisan concorda que há resistência por parte da comunidade quando o assunto é unidade prisional. Sugere que haja esclarecimento, já que uma penitenciária bem estrutura representa mais segurança para todos e forma adequada para o cumprimento de penas. Sem contar que aumentando o número de vagas proporciona menos soltura de presos e o cumprimento das penas dentro do que prevê o a legislação.
Por fim, espera desenvolver um bom trabalho em Paranavaí. Afirma que foi muito bem recebido pela comunidade e que já se mudou para a cidade. Ele quer dar sequência “ao bom trabalho” de Mânica e fazer ajustes diante das novas demandas que surgirão.
Trevisan já tem experiência na função, pois foi delegado-chefe em Laranjeiras do Sul. Uma área menor, aponta, mas detalha que os problemas são basicamente os mesmos, só mudando em escala. Paranavaí tem mais demanda e mais efetivo e recursos materiais, analisa. “Pego uma estrutura excelente liderada pelo doutor Mânica. Espero manter e avançar no bom serviço”, sintetiza.
Delegacia da Mulher – O novo delegado falou ainda sobre a estrutura da Delegacia da Mulher, que em Paranavaí tem um delegado respondendo desde que a delegada Fernanda Bertoco Mello foi transferida em julho de 2022.
Trevisan entende que não é determinante que seja uma mulher na função, até por conta do reduzido número de delegadas no quadro. Mas concorda que a sociedade aponta que as mulheres se sentem mais confortáveis sendo atendidas por uma delegada. Ele já foi titular de delegacia da mulher e não sentiu tal incômodo por parte das vítimas e usuárias dos serviços. Lembra que essa estrutura é a única no âmbito da 8ª SDP que não está subordinada à chefia, mas diretamente às especializadas. Confirma que, se for o caso, pode também pleitear a vinda de uma delegada para a cidade. Adverte que a mulher é atendida em todas as cidades e a minoria tem delegadas, mas avançam em estruturas adequadas para tal serviço. Na regional de Paranavaí, por exemplo, são nove comarcas e 34 municípios.
Agradecimentos – Mânica aproveitou a entrevista para agradecer a confiança da comunidade. Ele passou mais de um terço da sua carreira em Paranavaí e afirma que tem gratidão pela forma de trabalho ao lado da comunidade. Diz que continua à disposição nos seus novos desafios. Vai tirar um tempo de férias e deve partir para a advocacia. “Muito novo ainda”, conclui.

Detalhes e o “Caso Patrícia” – Na entrevista com os delegados que durou pouco mais de 50 minutos, Mânica e Trevisan falam de outros temas e desafios vividos ou a serem enfrentados em Paranavaí. Um dos assuntos é o chamado “Caso Patrícia”, que entra para a história de Paranavaí como um grande mistério.
Ela sumiu no dia 11 de janeiro de 2014 levando no colo a filha de apenas 20 dias. Iria a um posto de saúde. Patrícia nunca foi encontrada, mas a menina acabou localizada um tempo depois vivendo com uma família em Santa Isabel do Ivaí. A criança teve a guarda passada para a avó materna e o casal que estava com a filha de Patrícia acabou julgado por subtração de incapaz. O casal não deu qualquer pista que ajudasse a desvendar o desaparecimento da mulher.
Certo é que 11 anos depois a pergunta central ainda ecoa: Patrícia está viva? Com a sua experiência de 31 anos de Polícia, Mânica (que assumiu a chefia da SDP no dia 18 de janeiro daquele ano, portanto, uma semana após o desaparecimento), prefere não cravar a resposta e justifica: é preciso ser cuidadoso com um tema dessa importância. O caso pode ser reaberto a qualquer tempo, mediante novos indícios.