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*Carlos Teodoro Soster é advogado em Paranavaí

ARTIGO

O milagre da corrida

Certa ocasião, o Sr. K estava em um ponto de ônibus de Curitiba, quando um homem abordou uma das mulheres que esperava o ônibus e puxou-lhe a bolsa. Como a mulher segurava firme, acabou caindo atracada com o delinquente. Nosso amigo não hesitou em desferir um chute na cabeça do malfeitor, liberando a mulher e sua bolsa.

Ato contínuo, dois outros comparsas investiram contra ele. Mas cada qual levou um golpe de karatê e os três puseram-se em fuga, tudo sob o olhar inerte de outras pessoas que aguardavam no ponto.

De outra feita, ele subiu num superposte localizado no Jardim São Jorge, em Paranavaí, para trocar uma lâmpada. Após fixar a corda de segurança, a escada quebrou e ele caiu de uma altura de 14 metros, travado aos 7 metros do solo pelo equipamento de segurança.

Ainda assustado e dando graças por ter saído ileso, foi ao bar do outro lado da avenida e pediu uma bebida. Ao pedir a conta, o dono do estabelecimento disse que não cobrava de fantasmas, já que ele tinha visto a queda e nosso amigo que ali estava não deveria estar vivo. Gentil e espirituoso esse dono de bar, hein!?

Originário do sul da Bahia, o Sr. K foi eletricista industrial. Hoje na altura de seus quase 70 anos, teve na vida diversas vicissitudes, as quais superou com coragem e determinação. Mas nada que se compare ao que lhe sucedeu por volta do ano 2000. Naquela época ele residia no oeste do Paraná.

No episódio em questão, foi chamado para fazer um reparo na parte elétrica de um portão eletrônico de uma empresa de silos de grãos. O portão deveria ter travamento fixo no final da abertura. Não tinha. Não lhe avisaram. Enquanto trabalhava alguém abriu demais o portão que passou do fim do trilho e caiu chapado sobre ele. Um portão enorme, pesando uns 500 quilos. Num instante tudo ruiu. E agora? Estava selado seu destino numa cama de hospital ou cadeira de rodas?

Ele ficou todo desconjuntado. Foram 15 dias de hospital, quase 2 anos de fisioterapia e mais uns 15 anos de um longo e angustiante treinamento para voltar a caminhar. Inicialmente andava meio de lado “como caranguejo”, arrastando-se. Gemendo ou chorando, persistiu. Precisava sair do fundo do poço, precisava renascer das cinzas. Mas como?

Com o passar do tempo, já caminhando bem, ouviu de uma abençoada professora de Educação Física para tentar correr: “Comece com 100 metros”. Novamente foi necessário um monumental esforço para vencer a falta de músculos e a fraqueza dos muitos anos de inatividade, bem como a dor das sequelas.

As pequenas distâncias corridas foram aumentadas, paulatinamente. No início seu pace (tempo para correr cada km) era alto. Mas à medida que as distâncias aumentavam, o pace diminuía. Os movimentos do corpo foram progressivamente recuperados (até os 80/90% atuais). Ainda hoje, quando vai chover, tudo dói. Contudo, ficar parado não é uma opção.

A corrida segue sendo tratamento e cura. Mas hoje é também um esporte, um hobby, um divertimento, um meio de fazer amigos. Participou da Acorrenor e participa do Instituto VC RUN, de Paranavaí. Este instituto congrega mais de 400 corredores de rua. Além da atividade física o VC RUN incentiva assistência social com a doação de alimentos, roupas, calçados, cobertores, ração para pets, brinquedos e dinheiro (das inscrições nas corridas).

O Sr. K é um dos mais assíduos nos treinos e nas corridas de 5, 10 e 21 km. Possui dezenas de medalhas de participação e troféus dos pódios que alcançou.

Há os que saíram da depressão ou do vício das drogas, cigarros, bebidas, com a ajuda da corrida. Há os que correm para emagrecer ou ter boa saúde. Os que buscam a energia do movimento. Os que buscam a liberdade. E há os que – como o Sr. K – desafiam diagnósticos médicos, traumas, sequelas e dores. Levantam-se para correr pela vida.

Nisso redescobrem o milagre das pequenas coisas do cotidiano, da normalidade, como dar um passo de cada vez ou simplesmente respirar plenamente. Existem motivos para agradecer em cada movimento. Vamos correr?

Fonte: *Carlos Teodoro Soster

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