Há momentos em que as ideias fazem panapaná em nossa cabeça. Letras e palavras se espalham como estouro de pipocas, juntam-se, zanzam até encontrar o caminho das mãos, das teclas ou da caneta. E ficam ali aninhadas a compor um pensamento, um sentimento que mereceu o registro.
As borboletas em panapaná fazem o mesmo. Elas voejam assanhadas embelezando margens de rios ou terras úmidas sob o sol manso. Centenas, milhares delas, colorem graciosamente aquele espaço.
Com as palavras e ideias acontecem o semelhante: elas mexem com nossa inspiração, brotam pela respiração, cutucam-nos o âmago e os olhos.
Quem já viu e bem observou um panapaná, sabe do que digo. Quem já se dispôs a deixar no papel transcrevendo o que lhe veio no pensamento, também.
Parece que as palavras voejam, para encontrar parceria a compor uma frase.
Ao se juntarem em bando, as borboletas têm por finalidade o acasalamento ou a alimentação com substratos do solo, que as flores não possuem. Sobem, descem, esticam-se, vão para a esquerda e para direita, em círculos, curvas. Com as palavras se dá a mesma coisa, até se juntarem para compor o pensamento.
As borboletas mais espertas, aproveitando a oportunidade, fazem as duas coisas prazerosas: unem o útil da alimentação ao agradável da reprodução. E, se for o caso, migram para lugar mais favorável à sobrevivência do bando.
Em nós, palavra a palavra, o texto vai se formando. O seu contexto vai ganhando corpo e a inspiração e, nesse seguir se ajusta, dando-se por concluído.
O momento de criação passa, mas deixa sempre um sabor de quero mais. É como se ali no cérebro existisse uma horta em terra fértil onde as sementes apressam-se a germinar, a despontar suas folhinhas à brisa úmida.
Se as borboletas encantam nossos olhos, com as palavras acontece o mesmo. Dão-nos prazer ao serem colocadas com o objetivo de despertar o mesmo sentimento em que as lê.
Essa comparação entre palavras e panapaná não fere nem o equilíbrio e nem a harmonia em comunidade: eis que as borboletas, como as palavras, representam vida. O texto vai dizer se essa união resultou em alegria, ou outro sentimento.
Se alegre, se comparará a um abrir de asas, e as palavras se põem a flanar diante de olhos construtores de imagens. Um texto triste faz o contrário: umedece esses mesmos olhos, aumenta a pulsação de quem está a ler e mexe com seu interior.
Nessa comparação, a frase bem-feita e bem lida se compara a um panapaná a levantar voo na cabeça do leitor. E mantém, com beleza e harmonia, a continuidade da vida.













