O Brasil inicia o clima da eleição presidencial e estadual de 2026 com um tabuleiro que, apesar da aparência de “mais do mesmo”, está bem mais aberto do que muita gente admite. Há fadiga de polarização, desgaste de ruído permanente e uma demanda crescente por um tema que costuma decidir eleições. Embora seja sabido que o eleitor em geral pauta seu voto por emoção, a análise sobre a capacidade de gestão com entrega, resultados, método, time e previsibilidade também ganha relevo. O candidato que conseguir unir os dois mundos e conquistar o coração e mente do eleitor, levará o seu voto.
E é por isso que a chapa “Ratinho Jr presidente” ganha força e plausibilidade. Deputado mais votado da história do Paraná e proporcionalmente do Brasil, como governador do Estado por duas gestões, ele aparece com 85,5% de aprovação em levantamento divulgado em janeiro de 2026, patamar raríssimo na política brasileira, sobretudo para reeleitos. Praticamente sem rejeição do eleitorado, Ratinho Jr tem muito espaço para crescer.
Em pesquisa AtlasIntel/Bloomberg dos últimos dias, Lula e Bolsonaro aparecem no topo da rejeição (cerca de metade do eleitorado), enquanto Ratinho Jr registra 39,9%, menor do que os nomes mais diretamente associados à polarização. E em simulações recentes de segundo turno (Apex/Futura), ele surge numericamente à frente de Lula (44,8% x 41,2%), ainda que dentro da margem — o suficiente para caracterizar competitividade real para quem, teoricamente, ainda está “só no aquecimento”.
A história política ensina que subestimar candidaturas apenas serve como fermento, já que perfis como o da chapa Ratinho Jr costumam crescer quando combinam três fatores: (i) baixa rejeição inicial, (ii) bom repertório administrativo e (iii) um vácuo narrativo no centro — quando o eleitor quer “saída” sem se sentir traindo a própria identidade. Foi assim, por exemplo, no Brasil de 1989, quando Collor saiu do anonimato para liderar as pesquisas, dominando a comunicação e explorando a necessidade de ruptura e o poder do novo; e foi também um lembrete de que “virar o jogo” não garante, por si, governo virtuoso, porque a cobrança institucional e a realidade econômica chegam no dia seguinte.
Outra vantagem de Ratinho Jr em comparação, já que diferente de Collor, Ratinho Jr é um político experiente e experimentado, com atuação altamente aprovada por anos no legislativo, e agora por dois mandatos no executivo governando o Paraná, um dos Estados mais pujantes do Brasil, chamado por muitos de “o supermercado do mundo”.
E falando em mundo, a receita dos três ingredientes (pouco conhecido, baixa rejeição e oportunidade de mudança) costuma fazer vencedores. Jimmy Carter, nos EUA, então governador da Geórgia, começou 1976 com tímido reconhecimento nacional e venceu com uma mensagem simples, convertendo desconhecimento em familiaridade. No governo, deixou marcas históricas sobretudo na política externa que reconfigurou relações diplomáticas, e surpreendeu também na economia controlando épocas de crise e alta inflação. Barack Obama também começou 2007 como um senador jovem, com baixa familiaridade nacional fora de nichos políticos, e transformou isso em mobilização e expansão de coalizão — culminando na vitória e, no governo, em marcas estruturantes como o Affordable Care Act, que redesenhou a arquitetura de acesso à saúde nos EUA.
Emmanuel Macron tornou-se competitivo na França mesmo sem partido tradicional e sem um perfil público consolidado quando iniciou a caminhada; sua estratégia de movimento, e não de máquina, reorganizou o sistema político. Eleito, aprovou reformas relevantes, exemplo de como um “outsider do establishment” pode combinar novidade com agenda de Estado. Até mesmo na Ucrânia, para usar exemplos recentes conhecidos, Volodymyr Zelensky — um artista sem experiência política — venceu de forma avassaladora num ciclo de rejeição à elite tradicional, ilustrando como o eleitor, quando tem oportunidade de mudança, pode premiar quem simboliza a esperança de dias melhores. E se tiver histórico de experiência comprovada, resultados concretos, e aprovação doméstica como referência validadora, ainda melhor.
Voltando ao Brasil, vejamos como isso funciona na prática. Em 1994, por exemplo, o favoritismo inicial não era de Fernando Henrique Cardoso; o cenário mudou quando o Plano Real alterou expectativas, reduziu a inflação e reordenou a percepção de competência administrativa. A partir daí, a eleição virou, e FHC venceu no primeiro turno, inaugurando um ciclo que marcou a estabilização econômica como eixo da disputa política nacional. É um caso exemplar de como “boa gestão percebida” pode reescrever o mapa eleitoral em poucos meses.
A conclusão é simples: Ratinho Jr tem, sim, chances reais — porque reúne aprovação doméstica excepcional, baixíssima rejeição e um cenário nacional que pode migrar do “nós contra eles” para o “quem agrega e entrega”. O ponto decisivo será traduzir para o eleitor a boa gestão estadual em plano nacional, num país tão grande e múltiplo como o Brasil, costurar alianças amplas (fator importante com a expertise reconhecida de Kassab, líder do PSD), e oferecer uma narrativa de país que seja mais forte do que a caricatura que adversários tentarão impor. Se 2026 for, como parece, um plebiscito de emoções de um lado e competência e resultados do outro, o jogo está aberto — e quem estiver enxergando isso antes da maioria e souber conquistar corações e mentes, certamente também terá do eleitor o seu voto.
*Anderson Alarcon é advogado em tribunais e professor/doutor em Ciências Políticas Eleitorais – UFPR. É CEO Founder da Barcelos Alarcon Advogados – Brasília DF
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