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Foto: Ivan Fuquini

SEM MORADIA

Se essa rua (não) fosse minha: condição fere dignidade e invisibiliza moradores de Paranavaí

Fora de casa, pessoas enfrentam as intempéries, andam de mãos dadas com a insegurança e encontram refúgio no companheirismo de quem vive na mesma situação

“É f*d4. Tem dia que chove, faz frio. É complicado. E sempre tem alguém que oprime.” O desabafo é de um homem em situação de rua ouvido pela equipe do Diário do Noroeste. Ele conta que encontrou em Paranavaí um refúgio para as ameaças que sofria na cidade natal.

Assim que chegou, conheceu outros na mesma condição e passou a dividir com eles as calçadas onde dormem e fazem as refeições – quando há o que comer. Enfrentam juntos a exclusão social, compartilham as incertezas sobre o futuro e se abrigam sob a segurança do companheirismo durante as andanças pelos bairros.

Mais da metade das pessoas em situação de rua utilizam calçadas, praças e terrenos abandonados como moradia
Foto: Ivan Fuquini

Naquela tarde de quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026, o sol brilhava intensamente e os termômetros marcavam 35 graus. Uma cena chamou a atenção: o grupo se refrescava debaixo do chuveiro instalado em praça pública, aproveitando a oportunidade para tomar banho e lavar as roupas.

De acordo com a Secretaria de Assistência Social, Idoso e Família, 37 pessoas se encontram em situação de rua em Paranavaí. A maioria é de homens com média de 40 anos de idade. As mulheres também aparecem, porém em pequena quantidade – talvez três, estima a responsável pela pasta, Letícia Leziane.

Excluídos da convivência familiar, seja por opção, seja por enfrentar conflitos, esses cidadãos vivem à margem da sociedade, sem acesso a um dos direitos fundamentais assegurados pela Constituição Federal, a moradia.

Dignidade

É exatamente disso que trata a Campanha da Fraternidade da Igreja Católica neste ano. Com o tema Fraternidade e Moradia, o objetivo é despertar na sociedade a consciência sobre a moradia digna como expressão concreta da fé cristã.

O lema bíblico, Ele veio morar entre nós, é uma referência ao livro de João, capítulo 1, versículo 14. A frase tenta iluminar o debate dentro do espectro teológico, a partir do mistério da encarnação de Jesus.

Em artigo publicado nesta terça-feira (24) no Diário do Noroeste, o tecnologista sênior do Instituto Nacional de Pesquisas Especiais (Inpe) e congregado mariano Mario Eugênio Saturno afirma: “Está na hora de cumprir a Constituição e dar uma destinação patriótica para terras e moradias abandonadas: desapropriar, reformar e entregar a quem precise”.

Assistência

Enquanto as instâncias de governo não solucionam o problema definitivamente, as políticas assistenciais destinadas às pessoas em situação de rua atendem às necessidades básicas – ou pelo menos essa é a proposta.

Em Paranavaí, por exemplo, uma equipe da Secretaria de Assistência Social percorre as ruas da cidade para identificar essa população. Os profissionais verificam a documentação e conferem se há inserção em programas governamentais; em caso negativo, encaminham para os equipamentos especializados de atendimento.

A secretária municipal Letícia Leziane explica que o Sistema Único de Assistência Social (Suas) garante banho social duas vezes ao dia, das 8h às 10h30 e das 13h30 às 15h30. Em 2025, foram contabilizados 1.579 banhos.

Secretária de Assistência Social enumerou políticas públicas aplicadas em Paranavaí
Foto: Ivan Fuquini

A estrutura fica dentro do Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas), na rua Miljutin Cogei, 101, jardim Curitiba, em frente à Casa da Cultura. Quem procura o serviço também recebe café da manhã e café da tarde.

Em dias frios, com temperaturas de 10 graus ou abaixo, a secretaria oferece abrigo temporário para as pessoas em situação de rua. Passam a noite em local coberto, recebem refeições, tomam banho quente e ganham peças de roupas para se aquecer.

A equipe de abordagem faz a chamada busca ativa dessa população e reforça o convite. Nem todos aceitam. Alguns não se adaptam às regras. Outros temem a perda do território.

Segundo a secretária de Assistência Social, durante o último inverno, houve dias em que quatro pessoas se abrigaram no centro de evento; duas pessoas; 14 pessoas. A maioria estava de passagem por Paranavaí.

Pesquisa

Em 2024, a Universidade Estadual do Paraná (Unespar) coordenou um levantamento para traçar o perfil da população em situação de rua em Paranavaí. Os resultados, divulgados em 2025, mostraram que, à época, 55% utilizavam as ruas como espaço de moradia, incluindo calçadas, prédios ou terrenos abandonados e praças. Outros ocupam espaços em instituições de acolhimento ou estão inseridos no sistema penitenciário.

Dentre outras características, a pesquisa revelou que 79% se declararam negros (pretos e pardos); 82% afirmaram professar a fé católica ou evangélica; e a maioria disse que o tempo de permanência se estendia de dois meses a um ano.

A professora Marília Gonçalves Dal Bello, do curso de Serviço Social da Unespar, liderou os estudos. Conforme avalia, os dados compilados serviram como base para o fortalecimento das ações municipais.

Marília Gonçalves Dal Bello fala sobre combater a discriminação e o apagamento social
Foto: Arquivo DN

“Há uma abertura da Secretaria de Assistência Social para avançar nas políticas públicas. Vejo um movimento para pautar a discussão sobre a visão discriminatória e higienista e sobre direitos humanos e direitos fundamentais.”

Enquanto isso, para quem está na rua, a esperança de mudar de vida segue viva. As pessoas com quem o Diário do Noroeste conversou na semana passada querem ter a oportunidade de morar em um lugar digno. E é justamente de um deles que parte a reflexão que precisa chegar a toda a sociedade: “Quem é que não sonha com uma casa?”.

Fonte: REINALDO SILVA - Da Redação

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