Renato Benvindo Frata
Tenho comigo que a saudade é a filha da ausência. E ponto final.
Essa de que falo nos aperta o peito, como se mãos escondidas nos comprimissem por dentro. E aperta tanto que nos mareja os olhos.
A sua intensidade se prolonga no tempo, mistura-se aos nossos atos diários a partir da primeira piscada ao abrirmos os olhos. Ela dorme nas nossas pálpebras e acorda juntinho de nós.
Fica tão íntima que adquire nossos hábitos, mistura-se ao cheiro do café coado, ao brilho e à singeleza da louça que levamos à boca. Também se junta aos nossos passos, ao ato de empunhar a chave do carro e a tudo que façamos.
Curiosa e enxerida, ela se veste com nossas roupas mais velhas: as que usávamos quando ela ainda não existia. E assim canta as músicas que nos embalaram, devolve o perfume que aspirávamos, repete os risos que dividíamos e revive os filmes a que assistimos — coisas que o próprio ontem não conseguiu sepultar.
Tudo em nossa vida vira motivo para que ela se mostre. Parece que ela se entranha em nossa pele. E fica a bulir com nosso corpo e espírito, com nosso hoje e nosso amanhã.
Com isso nos cria ansiedade, tristeza, desejo e um alongar de olhos no vão da porta à procura de alguém que não vai entrar. Consegue manter nossos ouvidos sintonizados no menor som que possa vir do portão. Será? E às vezes — que contrassenso — acorda mansa, passiva, e se põe a caminhar nos mesmos chinelos silenciosos que usamos e, nesse modo, pode até fazer aceitável o convívio. Abstraímo-nos com o aperto morno no peito e com o cinza da melancolia.
No mais das vezes, porém, ela incomoda.
Modifica nossa fome, o paladar e até a maneira como vemos o hoje. Talvez porque a saudade só exista por causa do ontem e, dali para trás, sem limite de tempo e distância. E assim ela se veste de lágrima na cor da tristeza, a traduzir esse anseio em palavras que a boca não diz. Mas balbucia.
Quando se põe a escorrer, rabisca em nosso rosto uma espécie de mapa cheio das indicações perfeitas da falta de alguém. Momento em que transborda do peito a parecer provar que nosso corpo, tão grande, é pequeno para guardar tanto afeto interrompido.
Isso me leva a outra certeza: sentir saudade não é fraqueza, mas a certeza líquida do volumoso sentimento que deixamos escorrer por algo importante que se foi.
A prova está na máxima de que, se a lágrima é o traje de gala da tristeza, é porque o amor por quem se chora, um dia, se vestiu de festa. E sorriu.


















