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REFLEXÃO

Um vestibular, uma prova, não define quem você é. Quem está educando nossos jovens?

Pouco se fala sobre isso dentro das salas de aula. Os corredores ecoam conversas sobre notas, simulados, vestibulares, concorrência e aprovação, mas quase ninguém pergunta, com sinceridade, como o outro está por dentro. Muitos adolescentes chegam em casa depois de um dia inteiro de estudos e carregam uma sensação estranha de vazio. Não porque lhes falte inteligência ou capacidade, mas porque, aos poucos, passaram a acreditar que seu valor depende exclusivamente do próximo resultado.

A adolescência sempre foi uma fase de descobertas, porém a geração atual enfrenta um desafio inédito. Além de aprender matemática, literatura e ciências, muitos jovens sentem que precisam decidir toda a própria vida antes mesmo de descobrir quem realmente são. Crescem sob a impressão de que errar significa fracassar e de que existe um relógio invisível dizendo que qualquer atraso será definitivo. Não é difícil entender por que a ansiedade se tornou uma das marcas do nosso tempo.

Existe, porém, um fator que raramente recebe a atenção que merece: o ambiente. Somos profundamente influenciados pelo lugar onde vivemos, pelas pessoas com quem convivemos e, principalmente, pelo conteúdo que consumimos diariamente. Hoje, esse ambiente já não é apenas físico. Ele cabe na palma da mão. As redes sociais passaram a disputar espaço com a família, a escola, os amigos e até com a própria consciência na formação da autoestima de milhões de jovens.

O problema é que as redes quase nunca mostram a vida como ela é. Exibem recortes cuidadosamente editados, sucessos sem bastidores, corpos sem imperfeições, aprovações sem fracassos e felicidades sem dias difíceis. Depois de horas mergulhado nesse universo, o adolescente começa a comparar sua vida real com a vitrine da vida alheia. E ninguém vence essa comparação, porque ela é, desde o início, injusta.

Talvez por isso o excesso de telas seja um dos maiores desafios desta geração. Não porque a tecnologia seja inimiga — ela é extraordinária quando bem utilizada —, mas porque o uso indiscriminado pode alterar silenciosamente nossa forma de enxergar a nós mesmos. Quando percebemos, já estamos deprimidos não pelo que somos, mas pelo que imaginamos que deveríamos ser. A comparação permanente rouba a gratidão, enfraquece a esperança e faz nascer um sentimento de insuficiência que nunca se satisfaz.

Curiosamente, alguns dos maiores protagonistas da revolução tecnológica parecem conhecer esse risco melhor do que ninguém. Diversas reportagens mostram que líderes como Elon Musk, Mark Zuckerberg e até executivos ligados ao universo das grandes plataformas digitais adotam regras bastante restritivas para o uso de celulares e redes sociais por seus próprios filhos. Seria coincidência? Ou talvez eles saibam que toda tecnologia poderosa exige limites igualmente poderosos?

Outra ilusão que precisa ser combatida é a de que apenas alunos considerados “geniais” alcançam grandes realizações. A história ensina justamente o contrário. Napoleão Bonaparte não foi lembrado por um currículo impecável. Steve Jobs sequer concluiu a faculdade. Até Donald Trump jamais construiu sua trajetória apoiado na fama de aluno extraordinário. Em comum, cada um deles teve algo muito mais decisivo do que boletins escolares: atitude, persistência, capacidade de recomeçar e disposição para continuar aprendendo.

Isso não significa que o estudo perdeu importância. Pelo contrário. Conhecimento continua sendo um dos maiores instrumentos de transformação social. O que precisa mudar é a crença de que uma única prova define a inteligência, o caráter ou o destino de alguém. Os erros fazem parte do caminho. Toda conquista relevante costuma nascer de inúmeras tentativas, correções de rota e fracassos temporários. Quem aprende a levantar depois das quedas desenvolve uma força que nenhum vestibular consegue medir.

Talvez a maior missão dos pais, educadores e da própria sociedade seja formar jovens fortes, e não jovens perfeitos. Fortes para dizer “não” ao excesso de comparação. Fortes para pedir ajuda quando necessário. Fortes para descansar sem culpa, cultivar amizades verdadeiras, praticar esportes, ler bons livros, conviver com pessoas que inspiram e selecionar cuidadosamente o ambiente — real e virtual — em que escolhem viver. Afinal, somos, em grande medida, resultado daquilo que alimenta nossa mente todos os dias.

No fim das contas, nenhuma prova mede a capacidade de amar, criar, liderar, servir ou recomeçar. As notas abrem algumas portas; o caráter abre praticamente todas as outras. Que nossos jovens estudem com disciplina, caminhem com constância e sonhem grande. Mas que nunca percam a leveza, a alegria e a esperança. Porque o verdadeiro sucesso não pertence a quem parece perfeito nas telas. Pertence a quem, apesar dos medos e das dificuldades, escolhe todos os dias fazer a vida dar certo.

Prof. Dr. A. Alarcon

Advogado

@and.alarcon

Fonte: Por Anderson Alarcon

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