Mesmo com a política monetária restritiva conduzida pelo Banco Central do Brasil, o endividamento das famílias brasileiras atingiu 79,5% em janeiro de 2026, igualando o maior nível da série histórica iniciada em 2010. Os dados são da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor, divulgada em fevereiro pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo.
No mesmo período, 29,3% das famílias tinham dívidas em atraso e 19,5% declararam comprometer mais da metade da renda mensal com obrigações financeiras.
Para Ricardo Hiraki Maila, especialista em educação financeira, sócio-fundador da Plano, empresa especializada em planejamento e organização financeira para famílias e pequenas e médias empresas, o número revela um problema estrutural que vai além do custo do crédito. “O juro alto deveria frear o consumo parcelado, mas o que vemos é desorganização. Muitas pessoas e empresas não sabem exatamente qual é o tamanho real do próprio comprometimento”, afirma.
O levantamento mostra ainda que o cartão de crédito concentra 85,4% das dívidas registradas, seguido por carnês e crédito pessoal. Entre famílias com renda de até três salários mínimos, o endividamento chega a 82,5%.
Para o especialista, o dado reforça a vulnerabilidade das faixas de menor renda, mas também expõe falhas de planejamento em diferentes perfis. “Ganhar mais não resolve se não houver controle. A ausência de gestão é o principal fator de repetição do ciclo de dívida”, diz.
No ambiente empresarial, o cenário se replica. Pequenas e médias companhias enfrentam margens comprimidas, crédito seletivo e aumento de custos fixos. Ainda assim, recorrem a novas linhas de financiamento sem revisar fluxo de caixa ou despesas recorrentes. “A empresa vende, fatura, mas não gera caixa suficiente porque não acompanha indicadores básicos. Sem previsibilidade, qualquer oscilação vira problema”, avalia.
Segundo ele, o planejamento estruturado traz benefícios diretos às empresas, como maior poder de negociação com bancos, redução de riscos jurídicos e melhor acesso a capital. Também fortalece governança e credibilidade perante fornecedores. “Organização financeira não é planilha complexa. É clareza sobre entrada, saída e prioridade”, afirma.
O especialista aponta cinco medidas para mapear gastos, renegociar dívidas e criar reserva financeira
Antes de buscar novo crédito, é essencial revisar a estrutura atual e fortalecer a base de gestão.
Mapear todas as receitas e despesas
O diagnóstico completo é o primeiro passo. Identificar entradas, saídas fixas, variáveis e parcelamentos permite visualizar excessos e corrigir distorções.
Priorizar renegociação estratégica
Nem toda dívida deve ser quitada na mesma ordem. Avaliar juros, prazo e impacto no fluxo mensal ajuda a direcionar esforços para o que gera maior alívio financeiro.
Criar reserva de emergência
A recomendação é acumular de seis a 12 meses de despesas fixas. “Sem reserva, qualquer imprevisto vira dependência de crédito e retroalimenta o ciclo da dívida”, alerta.
Simplificar compromissos financeiros
Reduzir contratos desnecessários e parcelamentos dispersos facilita o controle e aumenta previsibilidade.
Buscar orientação especializada
Ao contratar empresa ou consultoria financeira, é fundamental avaliar credenciais, metodologia e acompanhamento contínuo. “O profissional precisa apresentar diagnóstico claro, metas mensuráveis e plano de ação consistente”, afirma.
Para ele, o aumento do endividamento mesmo em ambiente de juros elevados mostra que o desafio é comportamental e estrutural. “O crédito não é o vilão isolado. O problema é usar dinheiro sem estratégia. Quem entende o próprio fluxo consegue transformar o juro em variável de decisão, não em armadilha.”
Com o meio do mês tradicionalmente marcado por maior volume de análises sobre consumo parcelado e inadimplência, o dado reforça um alerta recorrente: sem planejamento consistente, o crescimento da dívida tende a se perpetuar, independentemente do nível da taxa básica de juros.




