Num ambiente predominantemente masculino, uma voz feminina se destaca. Diante de um batalhão com 88% de homens, uma parcela das ordens que regem o comando parte de uma liderança feminina, destoando do que parece ser o lugar comum do ambiente.
Aos 30 anos, a tenente Bruna Ramos Fernandes Del Fiol é a única oficial feminina lotada no 8º Batalhão de Polícia Militar (BPM). Além do efetivo de Paranavaí, ela tem sob a própria responsabilidade o comando de uma subárea, que a coloca como responsável, ainda, dos municípios de Amaporã, Nova Aliança do Ivaí e Tamboara. “O começo é muito difícil, porque a gente vem para comandar um policial militar homem que tem 30 anos de carreira, e a nossa hierarquia acaba nos colocando nessa posição. A gente tem que aprender a lidar com isso. Hoje eu acho que já consegui ganhar o respeito de todo mundo.”
As dificuldades citadas pela policial, no caso dela, ultrapassam as questões de gênero. Bruna ingressou na carreira militar aos 19 anos, inspirada pela vivência com o pai no Exército Brasileiro, e desde cedo precisou lidar, também, com a diferença de idade com os colegas de profissão.
Como você pode imaginar, a disparidade na presença de homens e mulheres foi a mesma desde o início da carreira. No curso de formação, Bruna se viu como uma das poucas em sala. “Na minha turma eram 68 pessoas e 8 eram mulheres”, relembra.
Ao chegar no ambiente de trabalho, a realidade se mostrou igualmente desigual. “É um ambiente muito masculino, a gente acaba tendo um pouquinho mais de dificuldade. Mas a gente vai lidando, pegando o jeito. E eu acredito que no decorrer dos anos, da época que eu entrei para quem está entrando hoje, vai ficando cada vez mais fácil”, reflete.

Foto: Ivan Fuquini
Evolução social – A última turma de policiais militares formada no Paraná teve 467 novas mulheres ingressando na carreira num grupo de 2.485 profissionais. O número reduzido de policiais femininas comprova que a diferença se repete em todo o estado. Mas para Bruna, a realidade está mudando.
Segundo a tenente, a própria corporação tem trabalhado para transformar o ambiente e a mentalidade de quem o compõe. “A instituição tenta nos acolher da melhor forma possível. Apesar do ambiente ser majoritariamente masculino, a instituição nos dá um respaldo, nos acolhe.”
A evolução, para ela, combate um dos primeiros preconceitos enfrentados pelas mulheres, que tenta se reafirmar na questão biológica. “‘Ah, a mulher faz menos, a mulher é mais fraca.’ A gente ouve histórias de que lá na década de 90, quando surgiu a mulher na polícia, havia homens que não gostariam de trabalhar com mulheres porque achavam que estariam fisicamente prejudicados numa ocorrência, por exemplo”, cita.
O interesse e persistência delas pela carreira provou o contrário. “Para a sociedade respeitar uma policial feminina também é uma construção, né? Hoje a gente tem muito mais respeito porque a própria sociedade sabe que o fato de estar sendo abordado por uma mulher não significa que você vai poder desmerecê-la. Eu acredito que a sociedade como um todo já entende bastante e vai entender cada vez mais essa atuação nossa”, celebra.
Ao olhar para a própria trajetória, a oficial acredita que cada mulher que ingressa na corporação ajuda a ampliar oportunidades para as próximas gerações. “Eu acho, realmente, que para a gente conseguir superar esse desafio, precisamos nos impor como mulher, como policial, e a sociedade vai ter que nos respeitar nas funções que a gente decidir seguir.”




