A casa é simples. As paredes de madeira abrigam apenas um cômodo onde estão distribuídos móveis e utensílios domésticos. Sobre o balcão à beira da janela repousa uma cesta de metal com ovos de galinha, meia cebola descascada e uma caixinha de fósforo. Não há instalações elétricas e a energia utilizada pelos moradores vem do sol.
Estamos na ilha Catarina, no município de São Pedro do Paraná, na região Noroeste do estado. É onde vive o pescador aposentado Edimar Schmith Ângulo, de 58 anos. Apaixonado pela natureza, orgulha-se o paraíso que o cerca.
As árvores nativas colorem o quintal e garantem frescor nos dias quentes. O canto dos pássaros preenche o silêncio entrecortado pelo som da correnteza do rio Paraná, de onde “seo” Edimar tirou o sustento da família por quase quatro décadas.

Foto: Gustavo Romano
O terreno limpo revela cuidado. Ele faz questão de rastelar a terra com frequência e toma todas as precauções para não interferir na área de preservação ambiental federal. Segue todas as regras para manter a harmonia, afinal, está no paraíso.
“Aqui é muito bom demais, rapaz. Aqui os cânticos dos passarinhos. Você quer pegar um peixinho, você vai ali, você pega uma misturinha rapidinho, você pega o peixe, você vende. É o melhor lugar que tem para morar.”
O galinheiro na área externa também é fonte de alimento. Se não houver peixe para o almoço, basta dar alguns passos e recolher os ovos. De vez em quando, ele solta as aves para uma caça aos insetos e as põe de volta logo depois.

Foto: Gustavo Romano
Diário do Noroeste – “Seo” Edimar tinha mais ou menos 20 anos de idade quando chegou à ilha Catarina para morar com o pai e a madrasta. As fotos antigas enchem o coração de saudade e comprovam a estada duradoura, marcada por um episódio trágico. Em 2007, todo o espaço foi tomado pelas águas do rio Paraná em razão das fortes chuvas que atingiram a região. O pescador não tinha para onde ir e precisou improvisar uma barraca de lona fora da ilha.
A situação foi registrada pelo Diário do Noroeste no dia 26 de janeiro daquele ano. O texto assinado pelo jornalista Ricardo Paiva começa assim:
“Com as fortes chuvas ao longo de toda a bacia hidrográfica do rio Paraná, a população ribeirinha já começa a deixar suas casas. O nível das águas subiu cerca de 4,20 metros nos últimos 15 dias e deve continuar subindo”.
Uma foto de “seo” Edimar acompanha a matéria.
A publicação foi decisiva na vida dele. Assim que a situação se normalizou, ele decidiu voltar para casa, mas precisou provar que era morador da ilha. Além dos registros fotográficos, apresentou a edição impressa do DN, que atestava os argumentos junto aos órgãos ambientais.
“É, o jornal serviu muito, né, porque ali é uma prova que a gente tem em mão. Esse jornal é uma prova. E aí até fiz o CAR.” CAR é o Cadastro Ambiental Rural, do governo federal, um registro público eletrônico obrigatório para todas a propriedades e posses rurais no Brasil.
“Aí esse jornal eu guardei comigo até hoje, de uma lembrança, um documento praticamente para comprovar que a gente é ilhéu. Foi isso aí que aconteceu e eu tenho jornal até hoje.”

Foto: Gustavo Romano
Família – “Seo” Edimar é bom de prosa. O discurso singelo e bem-humorado envolve como um abraço paternal. E é assim, com carinho, que fala do filho Edimar Schmith Ângulo Junior, mais conhecido como Serafim.
Ele também é pescador e cresceu na ilha Catarina. Aprendeu o ofício acompanhando “seo” Edimar na lida e fez do rio Paraná o ambiente de trabalho. Da mesma forma que o pai, demonstra respeito pela natureza e se sente orgulhoso por repassar os mesmos ensinamentos ao filho Miguel.
“Meu pai pega o rastelo, ele [Miguel] já pega a carriola e quer ajudar a limpar o quintal. Me ajuda a pescar também. Quando eu ’tô mexendo com as redes, ele vem: ‘Pai, quer que eu te ajude?’. E vem me ajudar mexer com as redes.”
O menino tem 5 anos e já se espelha no pai. Gosta de contar como pegou um peixão outro dia. “Era grandão assim”, diz, indicando as proporções com as mãos.
Serafim incentiva. “Vai aprendendo, vai ficar bom quando crescer, vai ficar pescador dos bons. E pega bastante peixe comigo, levo para pescar comigo, aí pega peixe. É assim que é bom criar o filho, longe da cidade grande, das coisas erradas, porque, hoje em dia, é fácil não.”
A história da família de “seo” Edimar prova que não é preciso ter uma vida luxuosa para ser feliz. Aproveitar os recursos naturais como forma de subsistência, compartilhar o amor com quem está por perto, morar no paraíso… É ser muito, mesmo tendo pouco.
“Graças a Deus, somos felizes, porque isso aqui, rapaz, é a única coisa que a gente tem. A única coisa que a gente tem. Então, a gente é feliz, porque tem isso e gosta do que faz. A gente gosta”, conclui “seo” Edimar.



