Há alguns dias, durante mais uma viagem, cheguei ao destino e repeti um ritual comum a tantos viajantes. Abri a mochila para pegar uma camisa cuidadosamente guardada, tentando evitar que saísse amassada. Ao enfiar a mão no fundo da bagagem, porém, senti uma ardência repentina. Retirei o dedo e vi o sangue escorrer. Uma lâmina de barbear nova, esquecida sem a proteção adequada, havia aberto um corte profundo no dedo indicador.
Quem já sofreu um corte nessa região sabe como é difícil a recuperação. É um lugar que não descansa. O dedo está presente em quase todos os movimentos do dia: trabalhar, dirigir, escrever, abrir portas, segurar objetos. A água, o atrito constante e o uso contínuo parecem desafiar diariamente qualquer tentativa de cicatrização.
Os dias passaram e comecei a observar algo que, embora pareça óbvio, nunca havia despertado minha atenção. O ferimento não fechava de fora para dentro. A cura acontecia no sentido contrário. Lentamente, o organismo reconstruía a parte mais profunda primeiro, preenchendo o vazio interno para, só depois, recompor a superfície visível. O corpo sabia exatamente o caminho da restauração.
Aquela pequena lesão me fez recordar uma das mais belas lições da filosofia estoica: aquilo que sustentamos por dentro inevitavelmente se manifesta por fora. Não é a aparência que determina a essência. É a essência que, cedo ou tarde, molda a aparência. A solidez de uma construção depende dos seus alicerces, não da pintura das paredes.
Pensei então nas cicatrizes invisíveis que todos carregamos. Traumas, medos, inseguranças, frustrações e dores que a vida deposita em nossa história sem pedir licença. Mudam os rostos, as profissões, os endereços e as circunstâncias, mas há algo que nos iguala profundamente: todos temos feridas. Algumas visíveis. Outras escondidas sob camadas de silêncio e rotina.
Talvez por isso tantas transformações fracassem. Muitas vezes tentamos reformar apenas a superfície da vida. Mudamos hábitos, roupas, ambientes, relacionamentos ou projetos, mas adiamos o encontro com aquilo que realmente precisa ser elaborado. A cura verdadeira, porém, segue a mesma lógica do corte em meu dedo: ela começa nas profundezas. É no interior do ser que compreendemos nossa história, identificamos padrões, rompemos ciclos e encontramos sentido para continuar.
O mundo contemporâneo costuma nos ensinar a procurar fugas externas. Só que chega um momento em que cada adulto precisa assumir a responsabilidade por acolher a própria criança ferida. Ninguém pode fazer integralmente esse trabalho por nós. É preciso abraçar a própria história, ressignificar as próprias dores e transformar cicatrizes em aprendizado. Porque a cura que permanece não é aquela que apenas encobre feridas. É aquela que reconstrói o que estava quebrado. E toda reconstrução duradoura, assim como a cicatrização do corpo, acontece de dentro para fora.
Abrace-se! Acolha-se! Cure-se!
Prof. Dr. Anderson Alarcon
@and.alarcon



