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Foto: Arquivo/ DN

CRÔNICAS DO BEN

A incapacidade do tempo

A incapacidade do tempo

Uma coisa, só uma: o tempo, esse monstro que nos estraçalha aos poucos, não nos consegue tirar. Ele nos põe rugas, amolece nossa pele, pinta-nos com pingos marrons, pretos, esverdeados. Endurece nossos nervos, arranca-nos os cabelos, encurta nossos passos, enrijece-nos, amolece nossos músculos. Dá-nos pescoço de frango, pés de galinha nos olhos, empapuça nossas pálpebras, desenha código de barra em nossos lábios, risca-nos com bigodes chineses e tira o brilho do nosso olhar. 

É tão mau que nos embaralha os pensamentos, afrouxa nossa fala, garroteia nossos desejos, desarranja nosso semblante, arqueja nosso corpo, arranca-nos os dentes quando não os amarelece. Um horror! O tempo machuca! 

Mas há, para nossa alegria, um contraponto no permeio. Com todo o aparato com que nos entristece, conseguimos maneiras de enganá-lo. São os cremes, pincéis, ácidos, cirurgias, tintas e próteses que, na verdade, embora efêmeros e inconstantes, o enganam. E a nós, também! 

Isso prova que não conseguimos reverter o dano que ele crava, tenhamos ou não muita idade, gordura em quantidade, secura, altura, pés grandes ou pequenos, mãos lanhadas ou macias, voz grossa ou fina, melodiosa ou grave. Sejamos artistas, bancários, professores, garis, letrados ou analfabetos. Não há remédio que impeça as ações desse bandido. Mas, em compensação, temos um órgão que embora se sujeite ao envelhecimento, mantém-se capaz de se expressar da mesma forma ao longo da vida. Está associado diretamente aos sentimentos. 

Sim, são os lábios que permitem que comamos, falemos, beijemos, xinguemos, o que nos diferencia de outros animais. Representam um dos pontos da articulação que transformam o ar vindo dos pulmões em fonemas. 

São eles que produzem a expressão facial e a associa à manifestação de afeto, prazer e alegria, independentemente do formato, largura, espessura, num processo físico a quem damos o singular nome de sorriso. O simplório e espontâneo sorriso é a arma que temos para combater o tempo. Ele será sempre o mesmo, desde o berço, até o caixão. 

Para dizer que o tempo, enquanto vilão do corpo, embora à primeira vista pareça poder tudo, só pode o quase. De onde se conclui que sorrindo, por mais velhos fiquemos e mais dependentes estejamos, a felicidade expressada pelo sorriso dirá da nossa beleza interior ao interlocutor. Ele resplandece a alegria, a felicidade. 

Então, se o tempo é incapaz de destruir sorrisos, que o usemos com mais frequência. Ele é a voz muda da nossa alma.  Que tal um belo sorriso agora? Tente, experimente!

Fonte: Renato Benvindo Frata - Premiada em 2º lugar no 4º Concurso Literário Clara Gazen, de São Sepé, RS (2024)

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