Aos poucos, a criança de colo se faz valente. Adquire vontades e algo a liberta da dependência. Se antes chorava para ser atendida, agora insiste, resultado da conexão íntima entre cochichos dóceis nos ouvidos, alisares macios de mãos amorosas, ninares amornados em balanços e cuidados que lhe ensinam o que é bom.
Lépida a sorrir com a novidade, logo suas solas rosadas irão ensiná-la a conhecer pelo tato o liso, o áspero, o pontiagudo. Também o que machuca: o chão rugoso, a aspereza dos torrões, as folhas secas, o frescor do piso da cozinha, o molhado da grama. Ouso dizer que esse aprendizado é tão importante quanto a fala. Ambos se dão simultaneamente e levarão a criança aos diferentes conhecimentos.
Quem não se acostuma com o prazer? Com a voz, o colo cheirando à mãe? A atenção ao seu choro em atendimento à troca de fraldas? Todavia, quando ela se põe à aventura, esse descortinar vem encapado de indecisão. Uma força interior a lança aos primeiros passos independentes, ao tempo que lhe põe medo.
É o primeiro “voo solo” sob a magistral vontade, coragem, equilíbrio. E o mundo nunca mais se fechará aos desejos, porque o novo alimenta o prazer. O conhecimento se lhe abre como rosa desabrochada ao sol. E ela se veste com armadura de desafio.
Se chegou até ali, por que não buscar o lá? A vida produz possibilidades e escolhas. E a criança sente que o universo não dá. Ele empresta. E cobra de volta.
Age como o moleque ao conduzir a pipa no céu. Dá-lhe linha, corre a lhe suprir necessidades, imprime safanões para que atenda aos impulsos do vento. E ela sobe a fazer alegria. E o papagaio de papel desafia o vento, ampara-se nele, enfrenta-o, enquanto a linha o controla nessa ‘briga’. Tudo para dar a quem o comanda a sensação de poder. E a felicidade como resultado.
Crescemos nessa luta diária como a pipa, ora com rajadas a favor, ora a enfrentar as mudanças de vento, e seguimos como se nos mantivéssemos dia e noite nas alturas sob a segurança de uma linha. A consciência vira cabresto.
Nessa alusão, os problemas são como o vento. O controle da linha em manejo dá rumo ao voo e segurança a vínculos e valores. Eles impedem que a liberdade se transforme em desorientação. Nesse embate, aquele que manobra a pipa precisa saber a hora de puxar e a de afrouxar a linha.
Exemplo que vale para definirmos o quanto e quando é a hora certa de lutar e insistir, e a honrada hora de ceder. Talvez precisemos aprender limites: o momento de avançar, o quanto resistir, e o quando afrouxar a linha.
Afinal, a felicidade buscada não está apenas na superação das contínuas e difíceis lutas, mas, também, na habilidade de manter a tensão da linha suportável.
Isso evitará que um vento matreiro a arrebente.



