A conversa que à primeira vista pode parecer difícil em vida tende a se tornar decisiva em um dos momentos mais delicados para uma família. Somente no Brasil, mais de 3 mil pessoas morrem todos os anos na fila de espera por um transplante, apontam dados do Ministério da Saúde. Durante o Setembro Verde, mês dedicado à conscientização sobre a doação de órgãos, especialistas reforçam a importância de falar sobre o tema antes que uma eventual situação de luto exija uma decisão.
Segundo a médica intensivista do Hospital Santa Isabel, Dra. Joana Pamplona, o principal desafio para diminuir o volume de pacientes que aguardam por um transplante no Brasil é fazer com que o potencial doador avance por todas as etapas necessárias até a efetiva doação do órgão. Nesse caminho, a autorização familiar ainda representa um dos principais pontos de atenção.
Em Santa Catarina, localidade que possui uma estrutura de transplantes organizada, a recusa familiar historicamente fica em torno de 30% a 33%, índice inferior à média nacional. O número, no entanto, ainda representa uma perda significativa. Por isso, ampliar a doação depende de fortalecer toda a cadeia que envolve o procedimento, desde a identificação do potencial doador até a captação, distribuição e transplante.
No Hospital Santa Isabel, uma equipe especializada que integra a Comissão Hospitalar de Transplantes (CHT) acompanha pacientes com lesões neurológicas graves que podem evoluir para morte encefálica. A partir da suspeita, são realizados exames clínicos e complementares previstos em protocolo, por médicos habilitados e independentes da equipe de transplantes.
A especialista ressalta que o diagnóstico de morte encefálica e a decisão pela doação são processos distintos. A doação só é discutida com a família após a confirmação da morte encefálica e envolve, além da CHT, a Central Estadual de Transplantes e as equipes de captação e transplante.
A morte encefálica ainda é cercada por diversas dúvidas que podem dificultar a decisão familiar. Por isso, uma comunicação clara e acolhedora é fundamental. A família precisa compreender que a morte encefálica significa a morte do paciente e que seu diagnóstico segue um protocolo específico, independente da decisão sobre a doação. A autorização para a retirada dos órgãos, por sua vez, depende exclusivamente da família.
Autorização familiar é indispensável
No Brasil, mesmo que uma pessoa tenha manifestado em vida o desejo de ser doadora, a autorização familiar é indispensável. Por isso, mais importante do que apenas ter a intenção de doar é conversar sobre o assunto com as pessoas próximas. Quando essa conversa nunca aconteceu, os familiares podem enfrentar ainda mais insegurança diante de uma situação inesperada e emocionalmente dolorosa.
Avanços e desafios permeiam o processo
A responsável técnica pela equipe de transplantes do Hospital Santa Isabel, Dra. Maíra Silva de Godoy, destaca que os avanços tecnológicos e a organização da rede permitiram ampliar o acesso e os resultados dos transplantes no país. Em 2025, o Brasil alcançou a marca de 20,3 doadores por milhão de população e realizou quase 10 mil transplantes. A integração entre hospitais e Centrais de Transplantes é essencial nesse processo. A distribuição dos órgãos segue critérios técnicos e éticos, considerando fatores como compatibilidade, gravidade e tempo de espera.
Apesar dos avanços, ainda existem desafios relacionados à desigualdade no acesso aos centros transplantadores, ao diagnóstico tardio de doenças, à logística e à adesão dos pacientes ao tratamento após o transplante. Isso porque o procedimento não encerra o cuidado.
Para a médica intensivista, conscientizar sobre o tema é essencial para fortalecer a causa. Ela reforça, ainda, que a trajetória do Hospital Santa Isabel evidencia a dimensão humana por trás dos números. Cada transplante representa uma nova oportunidade para um paciente e, muitas vezes, uma decisão difícil tomada por uma família em meio à dor. “Por trás de cada número existe uma história: uma família que, em um momento de profunda dor, decidiu transformar uma perda em possibilidade de vida para outras pessoas”, resume Joana.



