Mais notícias...

Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors

Mais notícias...

Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors
Compartilhe:
Wilame Prado tem 40 anos e 20 deles dedicados à Comunicação. Jornalista e bacharel em Direito, é autor do livro de contos "Charlene Flanders, que Voava em Seu Guarda-Chuva Roxo, Mudou Minha Vida" e um dos contistas que integram a coletânea "15 Formas Breves", editada pela Biblioteca Pública do Paraná

REFLETINDO

A saga do coração cortado ao meio como um bife de coxão mole

Um dia, há muitos anos, ele abriu o peito e arrancou metade do órgão responsável pelos batimentos cardíacos. Sempre foi desprendido de vaidades. Nunca quis coisas a mais. Nunca foi muito afeito a posses.

Além disso, sempre esteve acostumado com as cicatrizes desenhadas por seu corpo disforme, identificando-se, ainda que a contragosto, com “Creep”, aquela música do Radiohead feita para esquisitos, deslocados, a quem não pertencem a lugar algum.

Ao desprezar metade do coração, cortando-o como se fosse um bife de coxão mole sob a tutela de um açougueiro habilidoso e suas facas afiadas, ele doou vida. E saiu andando por aí. Um tanto desalmado. Mais de duas décadas. Tudo para repartir esperança com ela.

Porque bastou o primeiro olhar cruzado com aqueles olhos castanhos para perceber que ela também era feita de feridas abertas. Uma sobrevivente. Alguém que merecia alguns acréscimos de sinais vitais mínimos para conseguir caminhar sem precisar olhar, a todo instante, para trás. Para os velhos traumas. Para o ingrato pretérito. Para uma existência que sempre colocou em xeque essa tal felicidade. Ela precisava daquela metade de coração para seguir adiante.

Não entendeu assim, porém. Ela esqueceu a posta azedando para fora da geladeira. Sentaram moscas. Fedeu. “Apenas carne de segunda”, pensou, talvez.

Considerou-o um coração mole. Um moleque. Um chato. Um exigente zangado. No máximo, um sujeito querendo oferecer acém cobrando preço de picanha. Um fazedor de dramas cotidianos, capaz de espalhar sangue pela casa inteira com um coração dilacerado todos os dias, e depois nem sequer limpar toda a sujeira. Sob o pretexto de tantas dores no corpo. Da necessidade de deitar. De tentar se recompor constantemente em meio às chagas que o acometeram desde o nascimento. Ele veio com defeito de fabricação.

A vida, às vezes, utiliza um imponente taco de beisebol para arrebentar a capacidade de qualquer um de tentar descobrir o significado da palavra orgulho. Com um coração pela metade, ele se arrebentou há muito tempo. Tomou paulada no corpo todo. E hoje cambaleia numa sobrevida representada pelo gráfico descendente do insucesso de uma vida cercada por uma tristeza extraordinária, implacável.

É cruel. E ela, provavelmente, desejou um homem. Um marido. Um pai. Um fã dos Legendários. E não um menino ferido vivendo uma espécie de seriado com várias temporadas, carregando suas dores e um medo terrível de que as próprias maldades acabem por machucar justamente aqueles que mais ama.

Apenas mágoa. É isso que ele sente. E sentiu quase sempre. Convivendo com a perseguição daquele sentimento de rejeição que esmaga, que aniquila, que convence a pessoa a fazer casulo debaixo das cobertas mesmo com mais de trinta graus lá fora. Tudo para não ver ninguém. Para não ser visto. Para fugir dos dedos apontando-o como o vilão da história. Um personagem do mal sem grandes poderes, sem planos diabólicos, sem capacidade de vencer. Mas disposto a estragar tudo.

É melhor ficar, mesmo, no quarto escuro. Distante da cilada que é imaginar-se convivendo com todos da sociedade. Com pessoas que ditam a felicidade. Que excluem aqueles que ainda não aprenderam a sorrir à toa, especialmente dentro de um elevador. Ou que quase sucumbem ao ter de cumprimentar pessoas de caráter suspeitíssimo na praça de alimentação de um shopping qualquer.

Certo dia, porém, o sangue finalmente secou. Ele havia perdido a esperança em algum canto da sala, em meio a tanta bagunça mental. Não nasceram flores num canto daquele quarto escuro. A mãe e a irmã correram feito doidas à procura de paliativos. Inclusive do médico chileno que, muitos anos antes, havia salvado a vida dele numa cirurgia de mais de oito horas. À época, ele era apenas um menino de doze anos. Não entendia por que haviam retirado cistos e uma costela de seu corpo. Não entendia por que teria de esperar intermináveis três meses para voltar a jogar bola pelas ruas da Zona Leste.

Não encontraram médico algum capaz de intervir naquele coração partido. Ou melhor: naquele coração rasgado, que sempre carregou a esperança de um dia conquistar aquilo que mais sonhava. Um lar. Uma família. Alguém capaz de entender caras esquisitos, mas cheios de amor para dar. Ainda que esse amor aparecesse, às vezes, em forma de atos descabeçados: como serrar um coração para ser frito em óleo quente na frigideira da desilusão.

A casa ainda estava toda suja de sangue quando o Anjo Gabriel colocou a mão sobre a cabeça daquele sofrível rapaz, àquela altura traduzido em alguns quilos de carne moída de procedência duvidosa. Destroçado, desalmado, desnorteado.

Houve redenção simbólica. Nascimento. Páscoa. O menino nasceu! O pai moído, de algum modo, estava desaparecendo dentro daquele pequeno coração já tão cansado. Amassado dentro de um pão com carne moída ao molho de tomate. No entanto, ele acreditava em milagres. Acreditem! E graças ao sorriso terno do filho, e ao poço de bondade que existe dentro daquela criança, voltou-se a falar de esperança debaixo daquele teto.

O coração secou, mas houve vida mesmo assim. As manchas vermelhas no piso laminado foram desgastando de tanta bola que pai e filho jogavam naquele Maracanã imaginário no alto dos oitenta metros quadrados do apartamento. Mirabolavam conquistas desportivas: faziam gols de placa; erguiam taças imaginárias de campeão; inventavam comemorações; eternizavam momentos sagrados depois do balançar das redes.

Até que, um dia, o pai chorou. Chorou muito. Abraçou e beijou o moleque. Vestia uma camisa branca. Uma camisa que, pela primeira vez em muito tempo, não tinha uma gota sequer de vermelho. Então contou a novidade para o filho: “Gabriel, meu coração parou de doer.

Fonte: *Wilame Prado [email protected]

Compartilhe: