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ATIVIDADE-ECONÔMICA

Atividade econômica perde ritmo no início do segundo trimestre

LEONARDO VIECELI
RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) – Em um horizonte de juros altos e inflação persistente, a atividade econômica abriu o segundo trimestre com sinais de desaceleração no Brasil.
Os indícios de perda de ritmo ganharam novo elemento nesta terça-feira (14), quando o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) divulgou o desempenho do setor de serviços relativo a abril.
Na comparação com março, o volume do principal segmento da economia nacional avançou 0,2%.
A variação veio abaixo da alta de 1,4% registrada no terceiro mês do ano.
O novo resultado também ficou aquém das estimativas do mercado financeiro. Analistas consultados pela agência Reuters projetavam elevação de 0,4% em abril.
O setor de serviços envolve uma grande variedade de negócios. Bares, restaurantes, hotéis, companhias de transporte, empresas de tecnologia e instituições financeiras são exemplos dessa lista.
“A economia entra no segundo trimestre com inflação mais alta com a Guerra da Ucrânia e aceleração dos juros. É uma situação mais difícil para consumo e investimentos”, aponta Sergio Vale, economista-chefe da consultoria MB Associados.
Antes de divulgar o desempenho de serviços, o IBGE já havia informado os resultados das vendas do comércio varejista e da produção industrial.
O varejo cresceu 0,9% em abril. Foi a quarta alta consecutiva, mas a menos intensa desse período. Os avanços foram de 2,4% em janeiro, de 1,4% em fevereiro e de 1,4% em março.
A produção industrial, por sua vez, subiu 0,1% em abril. A variação foi a terceira positiva em sequência, mas veio após altas mais robustas, de 0,7% em fevereiro e de 0,6% em março.
Na visão de Camila Abdelmalack, economista-chefe da Veedha Investimentos, a atividade econômica começa a ser mais impactada pelo aperto nos juros, que encarece o consumo de bens e serviços.
Além disso, a indústria ainda enfrenta problemas como a escassez de alguns insumos, conforme a analista.
Assim, o PIB (Produto Interno Bruto), também calculado pelo IBGE, deve registrar uma alta de 0,5% no segundo trimestre, projeta Abdelmalack. Se for confirmado, o resultado será inferior ao crescimento de 1% nos três meses iniciais de 2022.
“A gente começa a sofrer as consequências de um quadro mais restritivo”, afirma a economista.
Segundo ela, o que ainda tende a garantir estímulos à atividade econômica no segundo trimestre é a retomada de serviços presenciais, que sofreram baque na pandemia, além de medidas anunciadas pelo governo federal.
Entre elas, estão a liberação de saques do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) e a antecipação de pagamentos do 13º de aposentados.
“Os indicadores setoriais, mesmo seguindo em alta, estão mostrando alguma perda de fôlego”, afirma Alex Agostini, economista-chefe da agência de classificação de risco Austin Rating.
Na avaliação de Agostini, o PIB deve desacelerar no segundo trimestre e o cenário tende a ficar mais complicado na segunda metade do ano.
A projeção está associada aos efeitos dos juros elevados, que costumam aparecer com maior intensidade ao longo dos meses, à inflação persistente e às incertezas políticas da corrida eleitoral.
“A perspectiva é de uma desaceleração do PIB daqui até o fim do ano, com o risco de termos algum trimestre de retração”, analisa Agostini.
A taxa básica de juros, a Selic, está em 12,75% ao ano. Nesta quarta-feira (15), o Copom (Comitê de Política Monetária), do BC (Banco Central), deve anunciar nova elevação na taxa, de acordo com analistas.
A expectativa consensual do mercado é de uma alta de 0,5 ponto percentual. Assim, a Selic passaria para 13,25% ao ano.
Analistas ainda esperam que o Banco Central não descarte a possibilidade de um aumento final na reunião de agosto, já que a inflação continua elevada.
“Os indicadores estão em desaceleração e devem piorar ao longo do ano. Estamos caminhando para ter impactos maiores dos juros”, diz Vale, da MB Associados.
A consultoria projeta PIB de 0,4% no segundo trimestre, seguido por estagnação no terceiro (0%) e baixa de 0,5% no quarto. No acumulado do ano, a MB prevê alta de 1,1%.
“É uma soma de fatores que deve levar a uma desaceleração do PIB no segundo trimestre e, eventualmente, a alguma contração nos trimestres seguintes”, diz Abdelmalack, da Veedha Investimentos.
Conforme os dados divulgados pelo IBGE nesta terça, o setor de serviços como um todo está 7,2% acima do patamar pré-pandemia, de fevereiro de 2020.
A elevação de 0,2% em abril, em relação ao março, ficou concentrada em apenas duas das cinco atividades pesquisadas: informação e comunicação (0,7%) e serviços prestados às famílias (1,9%).
Os serviços de informação e comunicação vêm sendo estimulados na pandemia pela busca de empresas por digitalização, segundo o IBGE.
Já os serviços prestados às famílias, que reúnem negócios como bares, restaurantes e hotéis, foram beneficiados nos últimos meses pelo processo de reabertura da economia. Porém, ainda estão 9,6% abaixo do pré-coronavírus.
O comércio varejista como um todo registra patamar 4% acima de fevereiro de 2020, antes da Covid-19, diz o IBGE. A produção industrial, por outro lado, segue 1,5% abaixo do pré-pandemia.
“Em abril, o nível de atividade econômica do país pouco evoluiu. Foi restringido pela virtual estagnação da indústria e do setor de serviços. O comércio varejista até conseguiu se sair um pouco melhor do que os demais setores, mas ainda assim suas vendas não tiveram um resultado robusto”, avaliou o Iedi (Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial).
“Passados os efeitos iniciais da retomada de atividades presenciais, pode ser que venham ganhando peso a redução do poder de compra da população e o desemprego ainda elevado”, completou o instituto.

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