Juntando o expediente de trabalho, que era puxado, mais os estudos, que consumiam o tempo, pouco sobrava para outras atividades. Isso, porém, não foi barreira: às madrugadas me punha a escrever. Era a maneira de falar pela pena, o que não conseguia presencialmente.
Essas cartas, no fim dos anos 60, se destinavam a uma moça que eu nem conhecia. Era amiga da noiva de um amigo, em cidade distante.
Não é que elas passaram a ser respondidas? Num período curto, sim. Depois cessaram. Todavia, as simples cartas abriram o caminho para uma passagem sólida. Eram anjos, os mensageiros e, passados dois anos, por fim nos conhecemos. Para que, na primeira troca de olhares, eu me dissesse: ela será minha. Batalharia para isso. E voltamos a nos corresponder. Também às visitas mensais.
O coração, com asas de saudade, levava-me por estradas longas e esburacadas, a provar que não há caminho que não possa ser vencido, se a vontade é movida pela paixão.
As cartas trocadas? Quase 200. Estão guardadas em um grosso volume de capa dura cheio de encantos, desejos, fome, dificuldades e saudade. Substâncias essenciais para o namoro que prometia futuro. Nas folhas, as confidências, procura, promessas, nostalgia e incompletude, causadas pela ausência.
Nelas, a saudade! E disposição para amargar a espera a dois.
Cartas de amor são palavras lidas com o coração, embora os olhos se convertam nele diante do envelope manuscrito, com letras conhecidas e esperadas. Com a carta nas mãos, parava-se tudo. Corria-se para a luz que iluminava pensamentos e intenções ali deixados. Afinal, os olhos caminhavam pelas palavras escritas pelas mãos que o abraçaram,e soavam languidamente por lábios oferecidos a ternos beijos.
Conclui-se que cartas de amor são papéis transformados em pontes a ligar duas solidões.
Foi um tempo de construção de sonhos, idealização de utopias, aflição e doação nas horas dedicadas à pessoa da outra ponta. Hoje as redes sociais e a facilidade telefônica mataram as cartas.
O carteiro já não é mais o “pombo-correio” amigo e esperado nas duas extremidades. Ele, que partilhava da ansiedade, alegria ou tristeza, foi substituído por mensagens eletrônicas. Os carteiros hoje, infelizmente, entregam outro tipo de correspondências. Apressados, logo se vão: há muito serviço para poucas pessoas. Perderam, que pena, a confidencialidade dos amantes.
Voltando às nossas cartas hoje amareladas, mesmo que não contenham segredo algum, revelam amor enraizado. Constituímos família, filhas, o nosso ninho. Produzimos esperança e fizemos, em par, aquilo que não faríamos sozinhos. Amamos um ao outro.
E esse amor, se não consegue ter vida eterna, durará enquanto houver um suspiro no sussurro do último fôlego.
Obrigado, Helena, pelo presente da sua companhia.



