A lembrança e a saudade vêm de um tempo que se viveu. Parecem irmãs, mas cada uma mora num canto de nós. Ambas se preservam no passado e dali se manifestam. A primeira, da memória. A segunda, do coração.
A lembrança habita o fato vivenciado, que pode ter sido bom ou ruim. E só ao lembrá-lo, saberemos do sentimento que nos deixou.
A saudade, não. Ela se esconde em nosso peito, onde deve também se esconder a alma. E existirá quando houver um fato ou um tempo prazeroso a reviver.
Ninguém sente saudade de algo ruim, por isso a sua lembrança geralmente é feita de uma alegria dolorida. Aquela que alguns denominam nostalgia.
Exatamente pelo sentimento de ausência de algo positivo que se vivenciou. E, vista desta forma, é o sentimento temperado com paixão, defumado com a espera, posto em mesa à recordação.
Um cheiro, uma cor, um vento em redemoinho ou uma gostosa risada podem despertar uma lembrança. Ao chegar, vem carregada de afeto, a trazer consigo a saudade.
Dão-se as mãos a brincar de roda em nós.
Pois não é que dizem que tanto a lembrança como a saudade, possuem olhos nas costas? Afinal, enxergam somente o ontem.
Todavia, a lembrança normalmente é passageira. Não cria raízes.
A saudade, não. Quando chega, vem de mala e cuia para ficar. E fica! Cravando em nosso peito uma ternura chorosa.
A primeira pode representar um momento de distração; a segunda se demora no presente, agarrada a um passado que já não podemos viver.
Por isso, essa tende a permanecer.
Talvez a saudade seja isso: uma vírgula posta onde a vida parecia ter colocado um ponto.
A lembrança nos conta o que aconteceu. A saudade pede que aconteça de novo e, quanto mais rápido se der, melhor. Ela tem pressa.
Mas, quando percebe que não consegue reviver, põe secura em nossa boca.
E mais: às vezes nos aperta tanto e tão profundo que nos tira um pesaroso soluço.















