Inventei um ditado: não se pintam unhas de gato.
Se existe, não sei de que país veio. Se não existe, passa a existir agora, com a advertência sobre o perigo que enfrentará aquele que insistir em pintá-las.
O gato, quando domesticado, é dócil. Enrosca-se nas pernas do dono, mia fininho, pede alimento ou colo, acompanha a família pela casa, brinca com bolinha de papel e vira confidente de avós e crianças.
Porém, que não inventem de mexer nas suas unhas.
Elas são suas armas de defesa e ataque. Quem tem gato, sabe.
Já viu um gato subir em árvore? É mais ágil que macaco. Suas unhas retráteis são seu mecanismo ajudam-no a subir, atacar e se defender. Mas alguns desses bichanos possuem humor de cão! A qualquer mal-entendido, põem à mostra as afiadíssimas unhas e dentes.
Pois não é que esse pet tão agradável é também um ditador?
Pequeno, é verdade, mas exigente que só ele. Quem o tem, sabe: os movimentos da cauda e das orelhas dizem se está calmo ou nervoso. E nós, os súditos, ficamos à sua disposição por uma vida.
Se o gato desconfia até dos donos, imagine o que pensa das visitas… e dos cachorros do quintal. Ele é desconfiado, talvez como devêssemos ser. Nós, porém, deixamo-nos levar por um belo sorriso, um aperto de mãos, uma palavra doce e alguns tapinhas nas costas.
O gato, não. Com ele é pau, pau, pedra, pedra.
Nisso, o gato se parece conosco: alterna carinho e defesa. A diferença é que ele sabe exatamente quando mostrar as garras. Estabelece seus limites e não negocia as próprias regras.
Nós, bem… temos instinto, coração e aquilo que orgulhosamente chamamos de razão. Na confusão entre os três, quase sempre recolhemos as garras quando deveríamos mostrá-las.
Por isso acabamos por aceitar desaforo, atrevimento e até o descaramento da mentira. Coisa que gato não aceita.
O gato sabe que há momentos de colo e momentos de garra. Nós é que, para parecermos dóceis, às vezes deixamos que nos pintem as unhas.



