Mais notícias...

Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors

Mais notícias...

Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors
Compartilhe:
Luiza Fariello é professora de Língua Portuguesa, doutoranda em Literatura na UnB e autora de “Um corpo para Jaime”, romance sobre a solidão contemporânea e a fragilidade das relações virtuais

OPINIÃO

Quem ainda está aqui?

Vinicius de Moraes contou certa vez que compôs a letra de “Gente Humilde”, uma das mais belas canções da música brasileira, inspirado, como diz a letra, pelas casas e pessoas muito simples do subúrbio que avistava enquanto se deslocava de trem. Os versos, que receberam a parceria de Chico Buarque, foram feitos no final dos anos 60 para a melodia composta em 1945 por Garoto, que infelizmente não chegou a conhecer a letra.

Mais do que nos fazer chorar de emoção, a canção tem o poder de nos humanizar; é um chamado para que a gente olhe ao redor, perceba. Esse convite talvez fosse bem mais difícil de ser aceito nos dias atuais, em que as pessoas – seja nos trens, ônibus, calçadas, salas de espera ou qualquer outro lugar que se pense – estão muito mais preocupadas em contemplar as telas do que flores tristes e baldias.

O desligamento das pessoas em relação ao lugar em que moram, pois cada vez mais priorizam os relacionamentos e os espaços virtuais, foi um dos sintomas abordados por Zygmunt Bauman na obra “Amor Líquido”. Para o filósofo, essa indiferença ao entorno seria o mais basilar dos afastamentos sociais, culturais e políticos de nosso tempo. Como podemos estar em todos os lugares, estamos também em lugar nenhum: simplesmente não pertencemos.

Perdemos o sono por sofrimentos que se passam do outro lado do mundo, o que é legítimo e prova da enorme capacidade de empatia do ser humano, mas somos cegos com as mazelas que acontecem no nosso bairro – onde certamente temos mais capacidade para interferir. Conhecemos a rotina do influencer que nem sabemos onde mora, memorizamos até o nome de seus filhos, mas custamos a lembrar se nos perguntam o nome do nosso vizinho. As redes, de fato, apenas reforçam o modo de vida corrida, alienante e obrigatoriamente produtiva disseminado de forma massificadora pela lógica neoliberal em que estamos imersos.

No mundo virtual, os laços se tornam cada vez mais frágeis e efêmeros; as pessoas, mais substituíveis. As redes sociais parecem, em verdade, bastante antissociais, terreno propício à disseminação do ódio por pessoas covardes demais para fazê-lo presencialmente – estão aí os redpills para provar. Nas redes multiplicam-se os linchamentos virtuais e as loucuras nocivas em massa, como é o caso da recente onda da magreza extrema.

Embora existam boas iniciativas e redes virtuais de apoio para as mais variadas questões, é preciso dar cada vez mais atenção para o real, acompanhar a lógica das crianças, que nos convidam a observar a fileira de formigas que se faz infinita no chão e a nuvem, antes que se desfaça. Antes que estejamos tão distantes que não seja mais possível alcançar a poesia e a música, ou mesmo a “vontade de chorar” de Vinicius e Chico. 

Fonte: Luiza Fariello

Compartilhe: