Bem-vindos ao Panteão Brasileiro. Aqui, deuses se unem para proteger a cultura das populações espalhadas por todo o país. Cada divindade carrega as marcas históricas, geográficas, arquitetônicas e da biodiversidade do estado que representa. O Paraná é regido por Belarmina, guardiã da liberdade e dos povos originários.
A personagem é inspirada em Belarmina Paraná, que atuou de forma marcante na defesa dos direitos, da visibilidade, da saúde e da educação dos indígenas, especialmente da comunidade Xetá, que tem ligação profunda com a região Noroeste.
A criação é do ilustrador mineiro Bernardo Barbosa, de 26 anos, natural de Ressaquinha e atualmente morando em Juiz de Fora. Formado em design gráfico pela Universidade Estácio de Sá, ele é o responsável por transformar cada estado brasileiro em uma figura mitológica.
Em entrevista ao Diário do Noroeste, o artista conta como o projeto foi concebido. “O Panteão Brasileiro nasceu de um delírio de madrugada da minha namorada. Ela costuma dormir tarde e já vinha pensando havia algum tempo que precisávamos criar um projeto maior, completamente autoral, para desenvolver nas redes sociais.”
A namorada, Marilu Dare, é escritora, autora do projeto Panteão Brasileiro e apaixonada por livros desde os quatro anos de idade. Ela garante que a leitura alimenta a imaginação e desperta a criatividade. Trabalha com marketing digital ao lado de Bernardo Barbosa desde 2022.
Os dois são fãs de mitologia, principalmente da grega, e perceberam que, embora o Brasil tenha uma riqueza enorme de histórias e tradições, parte da população não as conhece.
“A partir disso, decidimos criar nossos próprios deuses, inspirados na identidade de cada estado, sempre com respeito às culturas e às tradições que já existem. Queríamos desenvolver um universo autoral que despertasse a curiosidade das pessoas sobre o próprio Brasil e mostrasse que temos histórias e símbolos incríveis para explorar.”
Deusa da liberdade – Belarmina leva nos cabelos cores que remetem à plumagem da gralha-azul, ave-símbolo do estado desde 1984. Os pés também possuem características do pássaro.
Bernardo Barbosa contextualiza: “A gralha-azul tem relação especial com a araucária, pois está associada à disseminação dos pinhões e à regeneração dessas árvores. Essa referência também traz para a personagem a importância da preservação ambiental”.
A personagem usa um chapéu influenciado pelo Jardim Botânico de Curitiba, enquanto carrega um ramo de erva-mate, parte de uma tradição importante para a identidade paranaense e para a economia regional, especialmente durante o século XIX.
Outro elemento é o cachecol, inspirado nas Cataratas do Iguaçu, que se movimenta como uma correnteza. O rio Paraná faz parte das referências geográficas que ajudam a representar o estado.
As vestes combinam as cores da bandeira do Paraná, e as pequenas adagas presas à cintura representam a força e a disposição para proteger aquilo que não pode ser aprisionado.
O processo de criação também considerou referências como o fandango caiçara, manifestação cultural que envolve música e dança, e o barreado, prato tradicional da região litorânea.

Foto: Arquivo pessoal
Paixão e profissão – Bernardo Barbosa é ilustrador profissional há quatro anos, mas desenha desde que se entende por gente. “Sempre soube que queria trabalhar desenhando, então, quando me formei em design gráfico, já tinha em mente que queria direcionar minha carreira para a ilustração. Por isso, fui focando meus estudos e aprimorando minhas habilidades para transformar essa paixão em profissão.”
Ele desenvolve trabalhos para diferentes projetos e clientes, sempre buscando novas oportunidades para explorar as habilidades e o estilo artístico.
A ilustração é feita a partir do Clip Studio Paint, programa utilizado principalmente para quadrinhos e animações 2D, e uma mesa digitalizadora. As ferramentas permitem aplicar diferentes técnicas e desenvolver as ilustrações com liberdade criativa.
Processo criativo – O projeto desenvolvido em parceria com a namorada é considerado como uma oportunidade de aprendizado. Ao desenvolver cada personagem, os dois conhecem melhor os estados brasileiros.
“Nós nos concentramos principalmente nos aspectos culturais e históricos, buscando compreender o que torna cada lugar único e o que representa a identidade de seu povo. A partir dessas pesquisas, procuro transformar essas referências em elementos visuais que façam sentido no personagem.”
Redes sociais e visibilidade – O ilustrador mineiro utilizou as plataformas digitais para apresentar o Panteão Brasileiro. No perfil de Bernardo Barbosa no Instagram (@bernardocbb), o vídeo de Berlarmina somava, até o início da tarde de sexta-feira (30), quase 55 mil visualizações.
O uso das redes sociais, diz ele, possibilitaram encontrar a maioria dos clientes com quem trabalha hoje, “além de me aproximar de uma comunidade de pessoas apaixonadas por arte, assim como eu”.
Essa visibilidade é importante, especialmente nos tempos atuais, com o avanço da inteligência artificial.
“Encontrar pessoas que valorizam o trabalho artístico e reconhecem o valor de uma criação feita por um artista é algo muito significativo. As redes sociais acabaram se tornando não apenas uma vitrine para o meu trabalho, mas também um espaço de troca e conexão.”
Reconhecimento – Depois da repercussão positiva, Bernardo Barbosa e Marilu Dare comemoram uma conquista valorosa: o Panteão Brasileiro vai ganhar um livro. A editoração do material será feita pela Voz no Papel, de Santa Catarina – estado que acaba de ganhar a representação divina, Trovine, a deusa do encontro dos povos.
Marilu Dare assina a obra, que conta a origem dos deuses dentro da história do Brasil, oportunidade para expandir o universo criado pelo casal e aprofundar as narrativas de cada personagem.
“Nerd de carteirinha”, como o próprio Bernardo Barbosa se descreve, ele gosta de ir ao cinema, assistir a filmes, jogar videogame e ler livros. Essa bagagem cultural contribui de forma decisiva na hora de criar.
“São atividades de que gosto bastante e que também acabam alimentando minha criatividade. Como sou muito fã de histórias e universos fictícios, estou sempre encontrando alguma coisa interessante que pode servir de inspiração para meus trabalhos.”













